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22.8.11

Repórter descreve fim de semana de tensão em Trípoli


MATTHEW PRICE
DA BBC BRASIL, EM TRÍPOLI

Quando chegaram, chegaram com uma velocidade impressionante.


Ninguém previa o quão rápido as forças rebeldes da Líbia avançariam pela capital sem oposição.

Mas 24 horas após o início do primeiro combate intenso em Trípoli, na noite de sábado, os sinais estavam lá para todos verem.

Primeiro, crianças e mulheres de aliados do coronel Muamar Gaddafi começaram a fazer as malas e deixar o hotel Rixos.

O hotel de cinco estrelas é o local onde o governo obrigou os jornalistas estrangeiros a ficar durante a cobertura do conflito na Líbia.

Durante meses, o Rixos se tornou um ponto de encontro do governo. Um lugar de refúgio e segurança para eles, onde o ministro da Informação do coronel Gaddafi concedia entrevistas coletivas frequentes.

Agora, os familiares de importantes autoridades estavam partindo, supostamente para algum lugar mais seguro.

Então percebi que os tradutores com quem vínhamos trabalhando por meses agora também haviam partido.

Assim como a equipe da televisão estatal que trabalhava no hotel desde que a sede da emissora foi bombardeada pela Otan.

Esses eram sinais sinistros da batalha que viria a seguir.



JANTAR COM COLETE

Um feroz combate teve início do lado de fora do hotel, cada vez mais próximo. Desde a noite de sábado, o som de tiroteios e explosões ecoava pela cidade. Agora estava vindo em nossa direção.
Por muitas horas, disparos de armas pesadas sacudiram o prédio. O barulho das balas entoava sobre nossas cabeças, com um ruído que acompanhava o cair da luz.

Paul Hackett /Reuters
Jornalistas vestem coletes à prova de balas no hotel Rixos, em 
Trípoli
Jornalistas estrangeiros usam coletes à prova de balas e capacetes especiais no hotel Rixos, em Trípoli

Nós --da imprensa internacional-- nos juntamos para tentar decidir o que fazer. Vestidos com colete à prova de balas, e rotas de fuga escolhidas. Nenhuma rota para o porto, não havia nenhum barco lá para nos levar embora.

Então o cozinheiro do hotel apareceu e nos perguntou se gostaríamos de algo para o jantar.

Jantamos com os coletes à prova de balas --capacetes ao lado. E assim que a refeição do Iftar, a quebra do jejum, terminou, o relativo silêncio também chegou ao fim.

Armas pesadas abriram fogo novamente, com explosões do lado de fora do hotel.

As forças pró-Gaddafi montaram um posto de controle na rua. Nós ficamos presos dentro de um alvo para os rebeldes.

O ministro da Informação da Líbia, Moussa Ibrahim, convocou talvez sua última entrevista coletiva.



A Otan estava destruindo seu país, afirmou. Ibrahim pediu um cessar-fogo --caso contrário, haveria enorme perda de vidas, disse o ministro.

No lobby do hotel, um jovem homem armado gritava para um membro da imprensa e o acusava de dar informações para os rebeldes. Nós nos afastamos dele e de sua AK-47.

Em outro canto, o tranquilo e educado Dr. Aguila --o homem que era o encarregado do governo líbio para a imprensa estrangeira-- passou por mim, ainda com sua camisa casual para fora da calça, mas agora agarrado a uma arma.

Na semana passada, ele havia me dito que estava preparado, se necessário, para ir à linha de frente e defender seu país. Tarde demais, pensei.
 
ESCONDIDOS

Mas seria esse o tão anunciado "fim de jogo"?

Na tarde de domingo, Moussa Ibrahim me disse que 65 mil soldados profissionais e treinados, leais ao coronel Gaddafi, estavam na capital, prontos para agir e defender Trípoli.

Teriam os rebeldes caído em uma armadilha? Talvez ao avançar para o interior da cidade eles fossem cercados e atingidos. As tropas pró-Gaddafi já usaram essa tática antes.

Aos poucos, no entanto, ficou claro. A Praça Verde, onde na semana passada estive com aliados de Gaddafi que prometiam que a capital nunca cairia, estava nas mãos da oposição.

Filho de Gaddafi, apontado como seu provável sucessor, Saif Al-Islam havia sido preso.

Postos de controle da oposição se mantinham firmes nas áreas tomadas de Trípoli. A capital do coronel Gaddafi estava saindo de seu controle.

No momento em que escrevo esse texto, ainda há batalhas a serem travadas. Do lado de fora do hotel Rixos, ainda não acreditamos que as ruas estejam seguras. E homens de Gaddafi estão lá fora com armas, esperando. Ainda não podemos sair.

Em outros lugares, consigo ouvir o som de disparos --não de celebração, mas de combate.

Há muitos, muitos moradores desta cidade que, nesta noite, não estão nas ruas para festejar, mas escondidos em casa.

Eles não são apenas as pessoas que até ontem tinham a bandeira verde da Líbia do coronel Gaddafi no telhado de suas casas, mas também as famílias que pensam nos contínuos confrontos do outro lado de suas portas --aqueles que temem as diferenças tribais que agora vão surgir dentro da oposição, colocando em risco a chance de uma transição pacífica.

Ainda há aquela sinistra possibilidade de que o coronel Gaddafi, um homem que em quatro décadas no poder demonstrou habilmente sua capacidade de brutalizar e punir seu povo, possa ainda contra-atacar.

Mas agora isso não parece possível.

Agora parece que mais um regime árabe impopular caiu vítima da Primavera Árabe.
"É o fim de Gaddafi. É o começo da liberdade na Líbia!"

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