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19.12.10

Vaiechi


Conteúdos e funções da bênção
Qual é a função de uma bênção? O que deveria conter? Quem pode elaborar uma bênção? O que pode conseguir uma bênção?

A vida religiosa dá a entender que pedimos normalmente a bênção de Deus e, mesmo assim, nós próprios pedimos muitas vezes o que gostaríamos que esta incluísse. Assim, pedimos a bênçãos de saúde, de sustento, de conhecimento e sabedoria, de amor e paz.

Porém, o próprio Deus estabelece já no caso do primeiro hebreu, Abraão, que ele mesmo seja a bênção para o seu entorno, que cumpra a sua missão e se torne bênção. Ou seja, ao desenvolvermos nossas faculdades, tornamo-nos bênção para aqueles com quem compartilhamos o mundo. A bênção nesse caso teria três momentos: a) o pedido, o sonho, a necessidade; b) a descoberta de que ela se encontra, pelo menos em parte, dentro de nós mesmos; c) a realização por nós mesmos do conteúdo da bênção através da realização de nossa própria essência. Ou seja, visualizamos uma necessidade, um desejo, e o pedimos; descobrimos que o pedido tem tudo a ver conosco assim como sua realização, nós o realizamos e nos tornamos nossa própria bênção.

A bênção é de algum modo uma revelação em várias dimensões: revelação de nós mesmos, de nossos sonhos, necessidades e capacidades, de nosso vínculo com a divindade mais como uma orientação com respeito a nós mesmos do que como um diálogo entre uma parte que pede milagres e outra que os concede. Desse ponto de vista, o conteúdo de uma bênção pode ser elaborado pelo próprio destinatário ou por alguém que saiba captar sua essência, uma vez que sua função é principalmente revelar a necessidade e ao mesmo tempo a capacidade.

Na parashá, o terceiro e último patriarca, Jacó, em seu leito de morte, despede-se de seus filhos e netos com bênçãos individualizadas, uma para cada um. Uma análise detida das palavras das respectivas bênçãos mostra um formato que inclui encorajamentos, críticas e esperanças. Jacob fala do bom que tem cada filho, do pendente que há de ser melhorado e sua esperança expressa de que consigam a melhor realização de ambas, críticas e esperanças.

Ambivalências da força

Especialmente estranha resulta ser a bênção a Shimon e a Levi. Jacó mostra nelas que guardou uma conta pendente com esses dois filhos pelo affaire da irmã Dina. Como sabemos, Dina havia sido maltratada pelo filho do rei de Shechem que logo pediu para se casar com ela, mas Shimon e Levi estabeleceram a condição de que ele e todo o povo deveria antes se circuncidar. Eles aceitaram e em meio à convalescência foram brutalmente atacados. Jacó alude à imensa força deles em vários aspectos, critica-os ferozmente na bênção pelo mau uso da força, diz que não quer ter parte nem vínculo nenhum, mas ao mesmo tempo pede para serem distribuídos por toda a nação. Os sábios se perguntam se no fim das contas Jacó valorizava positiva ou negativamente a força deles. O rabino S.R.Hirsch, do século XIX, propôs que Jacó estabeleceu uma dupla mensagem a respeito desta força, uma vez que a força em si tem aspectos diversos, especialmente a força de uma nação. Segundo ele, a mensagem não era apenas para seus dois filhos e sim para as gerações futuras de Israel. Desenvolver força e coragem quando estivermos nas diásporas e formos minorias, para não perder nossa dignidade; e desenvolvermos os freios de nossas forças quando estivermos na nossa terra, Israel e formos maioria, para conservarmos nossa humanidade diante das minorias.

Shabat shalom,
Rabino Ruben Sternschein

5.12.10

Miketz


A história de José e seus onze irmãos é contada em detalhes nos últimos quatro trechos do Bereshit.

José esteve no fundo do poço por mais de uma vez. Ele era diferente de seus irmãos. Embora fosse o mais amado pelo pai, era incompreendido, odiado e perseguido pelos irmãos. Na primeira oportunidade, os irmãos livraram-se de José jogando-o em um poço.

Porém, a história dele teve a primeira reviravolta e ele conseguiu sair do poço de cabeça erguida e transformou-se no homem mais importante da casa do Potifar, שר הטבחים – o ministro dos cozinheiros.

Mais uma vez, por uma armadilha preparada pela esposa do Potifar, José foi parar no fundo do poço. Ele foi levado para a prisão que é chamada pela própria Tora de בור – poço.

No entanto, nosso herói conseguiu dar a volta por cima e, devido a sua capacidade de interpretar os sonhos alheios, tornou-se o segundo homem mais poderoso de todo o Egito. Este cargo lhe garantiu uma vida tranquila e também a seu pai Jacob e seus onze irmãos, que vieram ao Egito à procura de comida.

Estamos comemorando Chanucá e acendemos hoje a terceira vela. A história desta festa relembra uma época em que o Povo de Israel conheceu o fundo do poço. Os dominadores gregos haviam proibido a prática do judaísmo e impunham seus rituais pagãos ao nosso povo. Conquistaram o Templo de Jerusalém e profanaram-no colocando em seu seio estátuas de deuses gregos. Os macabeus surgiram para retirar o povo de dentro do poço e trouxeram luz e esperança para os judeus daquela época.

Tanto na vida de José como na história dos macabeus, os personagens conheceram a escuridão e o desespero. No entanto, quando tudo parecia perdido, uma luz era acesa e a escuridão do poço era substituída pela chama da esperança.

Vivemos hoje uma ameaça mais amedrontadora que o poço de José e mais poderosa que o extinto Império Grego. O inimigo da Era Contemporânea chama-se indiferença.

A falta de preocupação com a transmissão dos valores judaicos, e ausência de interesse pela continuidade das tradições, o abandono das práticas religiosas e a indiferença em relação ao futuro da nossa comunidade é o poço do qual todos fazemos parte.

Precisamos dar a volta por cima e ser os macabeus de nossos tempos.

Podemos, por meio de iniciativas simples, trazer luz à nossa comunidade e fomentar a chama do judaísmo. Devemos participar dos serviços religiosos e também convencer os amigos e familiares a fazê-lo. Devemos nos voluntariar em instituições da comunidade. Precisamos nos certificar de que nossos filhos e netos recebem uma educação judaica durante o ano e participam, nas férias, de uma colônia de férias da comunidade. Precisamos ler livros judaicos e participar de palestras e cursos de judaísmo. A cada Shabat devemos nos perguntar, o quê de judaico eu aprendi na semana que se passou? Finalmente, devemos praticar o תיקון עולם e colaborar para que o mundo seja um lugar mais justo.

Sejamos nós os macabeus da atualidade e façamos a nossa parte para que a chama da existência judaica torne-se mais vigorosa a cada dia e que a escuridão do poço de José seja substituída pela luz de uma esplendorosa Chanukiá.

Shabat Shalom e Chanucá Sameach
Rabino Michel Schlesinger

28.11.10

Vaieshev


Sonhos e interpretações
O que são os sonhos? Como funcionam? O que dizem com respeito à realidade? Existem diversas teorias. Alguns sustentam que os sonhos são restos da experiência vivida durante o dia e simplesmente retratam como essa experiência ficou registrada na emoção da pessoa, sem barreiras, às vezes sem leis de coerência, a partir de livre associação. Nos sonhos juntamos pessoas que não se conhecem, paisagens distantes umas das outras, tempos afastados uns dos outros, conforme as relações que têm para nossas emoções. Os sonhos assim podem nos mostrar as expectativas que temos, medos e desejos. Outros acreditam que os sonhos são revelações mesmo, que vêm de outras esferas, e através deles voltamos a viver mesmo o passado; vivemos um futuro possível ou preciso; e também opções que nunca aconteceram nem acontecerão na realidade física. É outra dimensão de realidade, talvez não menos verdadeira, embora menos concreta.

Na parashá, José sonha o que se realizará anos mais tarde e revela nos sonhos dos demais o que acontecerá em breve. Os comentaristas se dividem em três a respeito da capacidade de ver as verdades históricas de José através dos sonhos.

1) Deus revelou a José a verdade escondida na metáfora do sonho. O sonho é profético e precisa de um decodificador.

2) José sabia os segredos da corte real e ouvira o que aconteceria. Ele simplesmente colocou a informação que obtivera dentro da metáfora do sonho. Sem magias, nem místicas, nem interpretações. Simplesmente com astúcia e sabedoria diplomática.

3) José tinha uma intuição psicológica muito aguçada, com uma profunda sensibilidade para compreender o próximo, e através do sonho sentia a pessoa e a entendia. Os sonhos não são senão o que vibra no fundo da alma da pessoa. O que se apresenta nos sonhos é a profundidade do coração.


Belezas interiores e exteriores em diferentes circunstâncias

José era bonito de atitude e de aspecto, diz o texto. Os sábios se detêm na diferenciação. Uma é a beleza física e outra é a beleza do espírito. Uma é a beleza do corpo, externa; a outra é a que se reflete no comportamento, é a estética da ética. Esta segunda é a que nos leva a dizer muitas vezes “que lindo gesto”, “que linda personalidade”, “que lindo pensamento”. José conta a verdade de seus sonhos a seus pais e irmãos, assim como também conta a verdade sobre as fracas atitudes dos irmãos para seus pais. Porém junto à virtude da verdade, ele tem o defeito da insensibilidade para com o outro. José começa seu percurso com transparência, mas também com arrogância e encerrado apenas em seus próprios interesses. Só mais tarde, quando estiver no fundo do poço, experimentará a humildade necessária para ver os demais e reconhecer as expectativas deles. Assim rechaçará a sedução da mulher de Potifar, o amo que deu tudo para ele; e rejeitará de si a arrogância de crer que pode tudo, que tudo lhe pertence e que só ele conta. Inclusive dirá que sua sabedoria não é dele, não é mérito próprio e sim um presente da vida e de Deus. Reconhecerá que tudo é produto de vários, que tudo o que acontece convive com vários fatores e várias pessoas. Apenas então José entenderá o seu lugar único e ao mesmo tempo pequeno e relativo. Nesse momento será definido como belo de atitude e não apenas de aspecto.

Presença Divina na desgraça?

A cada passo da vida de José o texto fala que Deus estava com ele. É imprescindível perguntar-se qual é o significado dessa frase nos momentos de desgraça de José. Onde estava a Presença Divina na vida de José quando este sofria por ter sido jogado no poço por seus irmãos, quando foi sido vendido como escravo, quando foi posto na cárcere por um crime que não cometeu? Alguns dirão que Deus evitava em cada circunstância que esta fosse pior do que podia ser: para que José saísse rapidamente do poço, que fosse vendido para um bom amo, que no cárcere tivesse as melhores condições. Segundo esta ideia, a Presença Divina não muda a história feita pelos homens, mas apenas cuida deles no decorrer desta história. Cuida deles mesmos, cuida para que os homens não consigam usar a sua liberdade a fim de cometerem danos maiores contra si mesmos. Essa interpretação seria difícil de aceitar diante da Shoá, da Inquisição e de desastres naturais. A menos que digamos que o cuidado de Deus consiste em acompanhar a pessoa na desgraça, no enfoque em lidar com ela, mas não em intervir física ou ativamente nos fatos. Outra explicação diz que a Presença Divina consiste no significado que conseguimos tirar ou dar às diversas experiências que vivemos, boas e más. A Presença Divina é o significado e a prova que se nos apresenta através de cada momento de felicidade e de angústia, de sucesso e de desgraça.  “Deus estava com José” para fazer com que ele tire o melhor de cada oportunidade de vida e não apenas viva.



Shabat shalom,
Rabino Ruben Sternschein

3.10.10

Bereshit

Durante a semana, a correria é enorme. Precisamos resolver muitos assuntos em um curto espaço de tempo. Os resultados são noites mal dormidas, cansaço, mau-humor e a palavra da moda: “stress”.

Mas tudo tem a sua recompensa. Nada mais gratificante do que atingir os nossos objetivos. Depois de muita correria, é bom comemorar os resultados com um merecido descanso. Tirar um fim de semana sem fazer nada é realmente fantástico.

Já houve quem dissesse que o segredo da boa música são as pausas. Tocar um instrumento requer dom e bastante treino. Mas, é nas pausas que se reconhece um verdadeiro músico.

O desafio do mundo moderno é atingir o maior sucesso naquilo que se faz sem, no entanto, nos esquecermos dos intervalos.

A pausa é que dá força ao ser humano para continuar a sua jornada. Só durante um descanso, a pessoa é capaz de analisar com cuidado aquilo que está fazendo. Olhar para trás, enxergar sua própria vida como se fosse um filme e traçar com segurança um roteiro para o futuro.

Existem pessoas que são ótimas naquilo que fazem. Mas logo fracassam, por não reconhecer o valor do descanso, por não saberem a importância de uma pausa.

Na primeira parashá de toda a Torá, Bereshit, é detalhada toda a criação do mundo. Dia a dia, o que Deus criou. As plantas, os animais, o homem. Depois de tanto trabalho, até mesmo Deus precisou de uma pausa. No sétimo dia surgiu o Shabat e Ele descansou.

O Shabat é muito mais do que um mandamento a ser observado, é uma benção de Deus. Depois de uma semana de muita correria, em que muita coisa foi resolvida, mesmo que não tenhamos solucionado todos os problemas, vamos deixar algo para a semana que vem e nos dar o direito de descansar.

Quando Deus criou o homem utilizou dois ingredientes. O pó da terra para fazer o corpo e o sopro do céu para fazer a alma. Que o Shabat traga paz ao nosso corpo e inspiração à nossa alma.


Um bom descanso.


Shabat Shalom.
Rabino Michel Schlesinger

5.9.10

A vida é escolhida ou imposta?
 

Existe um mandamento ao mesmo tempo maravilhoso e misterioso: escolher viver.  Na parashá da semana, que coincide sempre com o momento do ano pintado pela reflexão sobre a vida e a morte, das Grandes Festas, aparece o trecho que diz claramente: “Veja, entreguei diante de ti hoje a vida e o bem, a morte e o mal.... e escolherás pela vida”.

Embora seja esta uma mensagem muito alentadora, que nos puxa sem dúvida alguma para um enfoque positivo da vida como um valor digno de ser eleito, a aplicação prática do mandamento é misteriosa.  A vida e a morte estão postas nas nossas mãos?! É simplesmente escolher?

Obviamente o mandamento não se refere apenas à situação de um médico que está prestes a salvar uma vida nem a uma pessoa que se encontra prestes ao suicídio ou à trivial situação de tomar ou não um medicamento vital.

Os místicos diriam que certamente a alma escolhe entrar mesmo no corpo e viver uma vida terrena num contexto determinado de corpo, família e situação social e pessoal.


Os psicólogos sustentam que existe em todas as pessoas, em todas as situações, um Eros e um Tânatos, ou seja, uma força que tende à vida, a construir, a reparar, a melhorar, a criar; e outra que tende a destruir, a brigar, a matar e a morrer.

Se estas teorias estão certas, então o versículo resumiu certamente há milênios uma verdade existencial: certamente, tudo depende sim de nossas escolhas. Escolhemos em todas as ocasiões por maior ou menor quantidade e qualidade de vida. O grande desafio é em cada caso é saber o que agrega vida e o que a diminui, e principalmente que tipo de vida e para quem. Nem sempre a luta destrói e a aceitação constrói. Nem sempre o que agrega para um, agrega para o outro também. Às vezes a escolha pela vida consiste em continuar a insistir, a perseverar; e outras justamente no oposto - consiste em encerrar, em desistir e começar novos caminhos. Às vezes a escolha pela vida é ter a coragem de calar, de aceitar em silêncio, de pacificar e aclamar; e outras vezes justamente a vitalidade é possível apenas através da denúncia, da demanda e da reclamação que diz “aqui estou”.

A própria parashá no começo sugere uma fórmula para essa escolha. O texto diz: “atem nitsavim haiom, culchem”, que significa “vocês encontram-se hoje presentes em totalidade, todos vocês”. Sim, também na gramática hebraica e bíblica o som é raro. Por isso os comentaristas sugerem: em plenitude - em totalidade, tudo o que inclui vocês. O passado, o futuro, os desejos, os sonhos, as frustrações, as possibilidades. Tudo. Estar com tudo na plenitude da presença, na totalidade da essência pessoal. Isso é em cada caso escolher viver. Colocar em cada lugar e em cada momento nossa totalidade de forças, de capacidades, de habilidades, e escolher com todas elas presentes.

Que possamos nos preparar para os Grandes Dias que vêm com a coragem de escolher viver com presença total.


Shabat Shalom,
Rabino Ruben Sternschein

29.8.10

Ki Tavô


Os talentos e capacidades do ser humano são inatos ou aprendidos? A discussão sobre se o indivíduo já vem com uma “configuração original de fábrica” pré-programada ou se nasce como uma tabula rasa, com tudo por aprender, faz parte de memoráveis debates na história da filosofia e da psicologia, da medicina e da educação. Os psicólogos comportamentais clássicos afirmavam que se os pais lhes confiassem uma criança bem pequena para educar, fariam dela o que os pais quisessem: um médico ou uma engenheira, por exemplo, pois para eles nada era herdado, tudo é aprendido. Por outro lado, há aqueles que defendem a importância dos talentos herdados, seja geneticamente, seja como herança espiritual, vinda dos pais, ou até de um povo inteiro.



A leitura da Torá desta semana incorpora justamente a tensão entre o herdado e o aprendido. Ela inicia com “quando você chegar à terra que o Eterno seu Deus lhe dá por herança, e você a herdar” (Deut. 26:1) e termina com “guardem os ditos desta aliança e os coloquem em prática, a fim de aprenderem em tudo o que fizerem” (Deut. 29:8). A palavra usada para “aprenderem”, taskilu, não é a mais comum de se encontrar na Torá. No dicionário, encontrei diversas definições para sua forma substantiva, hascalá: educação, escolaridade, conhecimento, sabedoria, erudição, iluminismo.



Hascalá. Este foi o nome do movimento surgido entre os séculos 18 e 19, conhecido como o Iluminismo Judaico. Nos tempos em que os judeus puderam deixar os guetos, épocas em que nossos antepassados lutaram por direitos iguais e de cidadania nos países em que viviam, os idealizadores de uma sociedade que integrasse os judeus entre seus cidadãos ficaram conhecidos como maskilim. O Iluminismo Judaico influenciou de forma decisiva em nossas vidas até hoje como judeus no mundo moderno, independente de nossas inclinações religiosas. Do debate sobre a vida judaica emancipada, podemos dizer que surgiram três tendências principais: (1) a dissolução na sociedade maior, com elevado índice de assimilação das novas culturas no país natal e abandono da herança judaica; (2) o movimento sionista, na busca da criação de um estado independente onde os judeus pudessem ser livres, em igualdade de condições com as demais nações;  e (3) um processo de integração à cultura maior, mas com a preservação dos valores judaicos herdados. Desta última surgiram diversos movimentos que buscaram e ainda buscam responder ao desafio de se viver como judeu no mundo moderno, seja no Estado de Israel, como parte das nações do mundo, seja como judeus que vivem como minorias em seus respectivos países. Estes diversos caminhos buscam, cada um ao seu modo, dar a melhor resposta para lidar com a tensão entre a nossa herança judaica herdada e o mundo que nos rodeia e do qual fazemos parte.



Entre o primeiro e o último versículo da leitura da Torá, entre o herdado e o aprendido, há inúmeras técnicas de como lidar com esta tensão: escrever o que se herdou, cumprir rituais, explicar bem, advertir sobre recompensas e punições, escutar, apreender, praticar. Esta tensão constante me faz ler o termo taskilu, no último versículo, principalmente como a prática de iluminar. O aprendizado, o estudo, o debate travado em cada geração e em cada local joga sempre uma nova luz sobre Israel, nossa terra, tradição e herança, fazendo com que a vejamos por novos ângulos e possamos enxergar algo que não havíamos visto antes. Neste sentido, a haskalá, a iluminação ou iluminismo, amplia os horizontes da herança judaica e a torna ainda mais rica e valiosa para as gerações seguintes.



Não é fácil lidar com tensões. Por outro lado, ao enfrentar os conflitos, nós nos sentimos vivos e nos desenvolvemos, como pessoas e como judeus. Nas palavras de Maimônides, a versão de uma das bênçãos anteriores ao Shemá, em sua obra Mishnê Torá: “Dê aos nossos corações a capacidade de entender,  iluminar: escutar, aprender e ensinar, apreender e colocar em prática, e cumprir todos os ditos do estudo da Tua Torá com amor.” (Sefer Ahavá, Seder Hatefilá 9)



Shabat Shalom!

Uri Lam




*A parashá da semana é acompanhada por uma ilustração da aquarelista Rosália Lerner.

8.8.10

Reê


Nos últimos dias escutei tantas conversas sobre alegrias e tristezas, sobre estar no lugar certo no momento certo e no lugar errado na hora errada. Nelas as pessoas justificavam de modo convincente que não entendiam o porquê de seu sofrimento. Outras buscavam respostas em atos do passado. Outras ainda responsabilizavam terceiros por suas dores. Houve quem atribuísse a origem de seus problemas a Deus, por critérios obscuros. Mas o que mais me chamou a atenção foi a frequência com que, diante da mesma experiência, uns as encaravam como bênção e outros como maldição.


Conforme a psicologia da percepção, o sentido da visão é o mais estimulado, mexe com os sentimentos e influencia muito em nossas decisões. Mas nós não somos meros receptores de imagens. Cada um tem suas vozes internas, seus pensamentos. Quando vemos algo, esta imagem passa pelo filtro de nossas experiências, recheadas de sentimentos e lembranças. A questão de como isso ocorre leva pessoas diferentes a compreenderem um mesmo evento de modos às vezes opostos.


Nesta semana, ao estudarmos a Torá, encontramos Moisés diante de uma multidão, já muito próximos de Israel. O maior dos profetas orienta a sua gente sobre como encarar a vida na nova terra. Como diante de um quadro, ele descreve a todos a seguinte imagem: do vale do rio Jordão podem se observar dois montes: de um lado o monte Guerizim, que transpira vida e fertilidade; de outro o monte Eval, seco, rochoso, parece morto. O silêncio toma conta do povo. Não se escuta um respiro. Cada um olha, vê, observa. A visão é a mesma para todos, mas cada um escuta apenas a voz do próprio coração.


“Quando o Eterno levar você à terra para onde você irá a fim de herdá-la, entregará a bênção sobre o monte Guerizim e a maldição sobre o monte Eval.” Israel, vale à pena lembrar, não é o Jardim do Éden nem nunca será. Terra que emana leite e mel, mas também de povos que os israelitas percebem como gigantes e ameaçadores. Terra de bênçãos, mas também de guerras e de morte. Terra que viria a se tornar um dos mais importantes centros espirituais do mundo, mas também um dos mais delicados locais de conflito do planeta.


Ainda assim, a porção da Torá garante: quem escutar as leis de Deus será abençoado, mas quem não as escutar será amaldiçoado. Pergunta: quantas vezes encontramos pessoas boas, éticas, dedicadas à família, aos amigos e à comunidade, que parecem respirar o ar seco do monte Eval? E por que gente pouco disposta a viver de modo digno, generoso e franco parece se divertir entre os bosques abençoados do monte Guerizim?


O rabino H. Kushner, em seu livro “Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas”, defende que há um espaço na vida ocupado pela fatalidade, sem conexão direta com a nossa postura diante da vida e independente da vontade de Deus. A questão é como reagimos a estas fatalidades. Por que às vezes escutamos bênçãos e damos as costas, por não nos acharmos merecedores? E como fazem aqueles que escutam o que parecem ser maldições e dão a volta por cima? Para o rabino S.R.Hirsch, a benção e a maldição não estão condicionadas a circunstâncias externas, mas sim às nossas disposições internas. Do vale nós vemos a aparência dos montes – um parece abençoado e outro amaldiçoado, mas as aparências podem enganar. Por outro lado, o que escutamos será uma benção ou uma maldição, dependendo da predisposição com que escutarmos.


Que possamos sempre escutar as vozes do mundo com autoconfiança, inspiração divina e apoio de nossos familiares, amigos e membros da comunidade. “E sejam felizes diante do Eterno seu Deus” (Devarim 12:12)



Shabat shalom,

Uri Lam


1.8.10

Ekev


A Torá nos conta, na parashá desta semana, que Moshé jejuou nos dias que esteve falando com Deus no monte Sinai. Assim declarou Moisés: “Pão não comi e água não bebi (9:9, 9:18).

Na presença de Deus, nosso líder vivia uma experiência espiritual muito intensa. É compreensível que não tenha comido e também não tenha bebido. Sua concentração deveria ser tão grande que não teve tempo para pensar em suas necessidades físicas. Seu espírito estava sendo alimentado pelas palavras de Deus.

Segundo o midrash, existe algo muito interessante no fato de Moisés não ter comido durante sua visita às alturas celestiais. Nossos sábios nos explicam que Moshé não comeu e não bebeu porque agiu como os habitantes daquele lugar.

No céu não há comida e nem bebida. Os anjos de Deus não comem e não bebem e Moshé portou-se da mesma maneira. Não comeu e não bebeu. Em respeito aos habitantes do céu, Moisés aceitou aquilo que era o costume local e agiu como os anjos.

 Para reforçar esta tese, o midrash nos lembra de outra passagem bíblica. Quando anjos vieram visitar nossos patriarcas Avraham e Sara, foram recebidos com comida e bebida. Assim, temos um exemplo oposto. Anjos do céu quando descem a terra, também se comportam como os habitantes locais. Como o costume aqui na terra é de comer e beber, os anjos também comeram e beberam embora não fosse esta a prática vigente nas alturas celestiais.

Assim está escrito no midrash: Lá em cima (no céu), onde não há bebida e comida, subiu Moisés às alturas (para receber a Torá e não comeu); porém embaixo (na terra), onde há comida e bebida, desceram os três anjos (do céu à casa dos nossos patriarcas Avraham e Sara) e comeram, conforme foi dito: “e ele (Abraão) colocou-se com eles sob a árvore e comeram (Gên. 18:8)”.
Existe um conceito judaico que se chama minhág hamacom, o costume local. Segundo esta idéia, uma pessoa que visita outro lugar deve respeitar os costumes daquele local e agir como aqueles habitantes.

Assim, por exemplo, temos o costume de ficar em pé durante o Shemá Israel na nossa comunidade. Em diversas comunidades o costume é realizar essa oração sentado. Se alguém visita a CIP deve agir como nós fazemos. Se, da mesma forma, nós visitamos uma comunidade em que se recita o Shemá sentado, assim devemos fazer.

Esta forma de comportamento expressa o pluralismo de nossa religião. Acreditamos que existe mais de uma verdade. O que vale para mim não é, necessariamente, válido para os outros e vice-versa. Assim, quando eu sou convidado em outra cidade, outra comunidade ou outra família, devo abrir mão dos meus costumes e agir com flexibilidade. Em sinal de respeito àqueles que me recebem devo agir como eles.
Será que existe um limite para esta flexibilidade? É claro que sim. Não vou ajoelhar porque estou em uma Igreja ou uma Mesquita porque isto fere um princípio fundamental da minha religião.

Assim, é possível afirmar que o judaísmo prevê a criação de uma sociedade pluralista. Sociedade em que diversas verdades podem coexistir. Desta maneira, o indivíduo deve abrir mão de seus costumes quando se encontra entre pessoas que tem costumes diferentes. No entanto, valores fundamentais não devem ser abandonados em função da atitude de nossos anfitriões.

A interpretação dos rabinos do jejum de Moshé nos dias que esteve diante de Deus, no cume do Monte Sinai, nos traz uma importante lição. Nós também atingiremos o topo do Monte Sinai e encontraremos Deus no momento que interiorizarmos a lição de que diversas verdades podem coexistir sem que uma prevaleça sobre a outra. Nosso desafio cotidiano é buscar o equilíbrio e viver de forma pluralista. Se até os anjos comem quando nos visitam, nós podemos “jejuar” para estar mais perto de Deus.

Shabat Shalom.
Rabino Michel Schlesinger


"A mensagem sobre essa parashá explica a famosa frase do Grande Lubavitcher Rebe, Rabino Menachem Mendel Scheerson Z''L, 'o que o alimento é pro corpo, a oração é pra alma'. Boa, Rabino Schlesinger, há limites para respeito de costumes, é verdade! Ainda nos veremos novamente, Rabino!"

20.6.10

Chucat


A leitura descreve o ritual da vaca vermelha (pará adumá). Aquele que tivesse contato com uma pessoa morta deveria passar por um processo de purificação espiritual realizado com as cinzas desse animal. O Midrásh estende a eficácia do ritual para os casos de impurificação moral e não apenas física, como determina a Torá.

Segundo o Midrásh Bamidbár Rabá, o Rei Salomão, considerado o homem mais sábio de toda a Bíblia, teria afirmado: “Eu me dediquei a entender a palavra de Deus e consegui compreender tudo, exceto o ritual da vaca vermelha”.

De fato, esse ritual desafia qualquer lógica e não pode ser compreendido de forma racional. De acordo com os Tossafot, intérpretes franceses dos séculos XII-XIV, o ritual da vaca vermelha é comparável ao beijo de um amante que não se pode compreender, mas apenas vivenciar.

Aquele que preparava as cinzas para serem usadas no ritual tornava-se impuro. Israel de Ruzhin nos chama a atenção ao fato de que essa vaca purificava os impuros e também impurificava aqueles que estavam puros. De maneira similar, segundo o pensador, Deus também purifica aqueles que, com humildade, se aproximam da sinagoga e reprova aqueles que chegam a ela com arrogância.

O ritual da vaca vermelha foi abandonado com a destruição do Templo de Jerusalém. Quando saímos de um cemitério, costumamos lavar nossas mãos. Entre outras explicações, este costume serve para lembrar aquele antigo ritual.

Ainda nesta parashá, Moshé vive momentos difíceis. Seus dois irmãos, Miriam e Aaron, morrem, e ele é avisado que morrerá sem conhecer a Terra Prometida porque não seguiu corretamente as intruções de Deus ao retirar água de uma pedra. Aos poucos, os israelitas vão se afastando do Monte Sinai e se aproximam da conquista de Canaã. A geração dos espiões é substituída por uma nova geração que não conheceu a vida no cativeiro egípcio.

Shabat Shalom.
Rabino Michel Schlesinger

5.6.10

Shelach Lechá


"(...) Há momentos de crise que tiram até Deus do sério. Mas a fúria é como o fogo: descontrolada, não vê nada à sua frente. Consome e acaba com tudo, o que é bom junto com o que não é. A fúria não é a melhor resposta para os momentos de crise, ao contrário, só aprofunda as dificuldades.

A Torá nos ensina que antes de “quebrar as tábuas” ou de botar fogo em tudo, é aconselhável escutar um parceiro de confiança que esteja vendo a situação de fora. A uma certa distância do calor da crise, muitas vezes é possível enxergar onde há água para apagar o fogo, encontrar uma alternativa melhor e perdoar. E o que é perdoar: esquecer? Não. Perdoar é ser capaz de buscar uma solução justa para a crise. É agir como senhor da situação, não como seu escravo, com bondade e serenidade." - Uri Lam

2.5.10

Emor

A preocupação pela ética é algo novo no judaísmo? Apenas o movimento liberal e os rabinos liberais procuram ensinamentos éticos e atuais nas fontes tradicionais? Ou sempre foi assim? A pergunta é especialmente importante nestes dias nos quais fica claro que a ortodoxia manda principalmente cumprir os rituais e nós, liberais, enfatizamos o porquê de cumpri-los. Claro que os ortodoxos também gostam de bons significados e os liberais não abrem mão da ação tradicional das mitsvot. Mas estamos diante de uma diferença clara de ênfase e nos perguntamos se o foco liberal é ou não uma novidade; se por acaso sempre foi assim - e se ficar preso ao mero ritual externo é que é a reforma da ortodoxia.

Na parashá da semana aparecem muitas regras rituais. Uma delas é a proibição de sacrificar no mesmo dia um filho e um pai ou mãe de carneiro. Dentre as múltiplas explicações que foram dadas a este tipo de ritual como cashrut, gostaria de assinalar três:

1) O rabino Kook, líder da ortodoxia sionista, escreveu que uma vez que a natureza humana infelizmente contem violência e agressão, o mais urgente é evitá-la entre seres humanos. Portanto, foi permitido o consumo de carne animal e foram dadas regras para sermos cuidadosos com os animais enquanto nos ocupamos do objetivo principal e urgente: a pacificação entre os seres humanos. Assim que atingirmos esse ideal, será o tempo de cuidar de não agredir os animais.

2) Nachmânides, rabino místico da Idade Média assim como o rabino Bechor Schor, disseram que o foco está em educar as pessoas através do tratamento aos animais. Tomamos o cuidado de não matar os animais com crueldade justamente para aprendermos a ser cuidadosos com as pessoas do mesmo jeito. Ou seja: não é que sublimamos nossa agressão destinada em princípio aos homens através de uma agressão controlada e diminuída para com os animais, mas ao contrário, as regras nos mandam cuidar dos animais para aprendermos a cuidar dos homens.

3) Maimônides, rabino racionalista da Idade Média junto com o Rashbam (rabino Shmuel ben Meir), comentarista talmúdico da mesma época, vêem na proibição mencionada uma medida de humanidade para com os animais em si mesmos. O objetivo não é adiar a piedade com os animais para privilegiar os deveres entre os seres humanos, nem aprender do tratamento dos animais sobre como deve ser nossa ética e compaixão para com os homens. As regras da Torá vieram para que sejamos humanitários também com os animais por eles mesmos, porque eles merecem, porque segundo eles não existem diferenças nos sentimentos mais básicos e ao mesmo sublimes de dor de uma mãe por seus filhos.

Fica muito claro que a preocupação que vai muito além da própria prática do ritual é algo que percorre os séculos de judaísmo e até identifica a forma dos judeus de lidar com sua tradição. Não se trata de cumprir com ações por que está escrito, nem de demonstrar apenas temor a Deus. Trata-se de melhorar o mundo e o homem através do SIGNIFICADO das mitsvot.

Mais ainda: trata-se de expressar os valores, as idéias, as esperanças e até as dores e frustrações mais profundas através das tradições.

Esta proibição comentada aqui, de não sacrificar um animal e sua mãe no mesmo momento, foi usada no midrash há cerca de dois mil anos, muito antes dos movimentos atuais e dos comentaristas mencionados, para reclamar de Deus diante de tragédias inexplicáveis. O midrash Bereshit Raba fala que Iaacov usou esta proibição diante de Deus quando pediu ajuda para que Essav não matasse seus filhos e esposas. O midrash Echá Raba atribui a Moshé o uso deste versículo para reclamar de Deus pela destruição de Jerusalém e pela morte trágica de milhares de mães e filhos juntos enquanto Deus, que ordenou esta proibição, não o impediu.

Em todas as épocas os judeus acreditaram que o significado dos preceitos ia muito além da prática simbólica dos rituais, e que apenas através da consciência desses significados era possível melhorar a si mesmo e melhorar o mundo.

Ao fazermos isso em nossas prédicas e ensinamentos, estamos resgatando o espírito mais autêntico e mais tradicional do nosso judaísmo, além de fazermos o que é mais urgente.

Shabat shalom
Rabino Ruben Sternschein


Rabino Ruben Sternschein (Texto) e Rosália Lerner (Aquarela) - Fonte: Congregação Israelita Paulista

24.4.10

Acharê Mot/ Kedoshim

Existe vida após a morte?
 
Esta é uma questão que fascina e perturba a humanidade desde que o ser humano se conhece por gente. Os cinemas brasileiros lotaram para lembrar Chico Xavier, o maior dos espíritas brasileiros, que dizia falar com os mortos. Mas quando a vida era um paraíso, para Adão e Eva esta não era uma preocupação, pois a vida parecia eterna. Então veio a consciência da própria nudez, dos limites e da fragilidade do corpo. Corpo que precisa ter elasticidade para se abrir ao nascimento de outro ser e forte para arar a terra.

Perceber os limites do próprio corpo também nos traz a consciência de que o corpo envelhece, perde elasticidade, perde força muscular, a pele fica menos brilhante e macia. Também os reflexos dos sentidos se tornam menos precisos, para alguns a memória fraqueja e o raciocínio se torna menos ágil.

O escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu um livro em que relata o Encontro Marcado com a morte. Na tradição judaica, conta-se que o Rei Salomão viveu alguns anos a mais graças à sua habilidade em enganar o anjo da morte. Conta-se também que um certo rabino começou a chorar de soluçar ao perceber que seu encontro com a morte estava próximo. Seus alunos ficaram muito incomodados e perguntaram: “Rabino, por que você chora tanto? Por que tanto sofrimento? Afinal, você foi um homem justo e bondoso, somente coisas boas o aguardam no mundo vindouro!” E o rabino respondeu: “Não choro porque a morte se aproxima, mas choro porque só neste mundo posso cumprir mitsvot, e não terei mais como cumpri-las depois que morrer”.

Embora ao longo de boa parte da tradição judaica se fale da morte e da vida após a morte no mundo vindouro – o Olam Habá – a verdade na maioria dos casos é que o tema perturba a muitos de nós porque lá no fundo, se não sabemos nem como será o amanhã, imagine ter ideia de como será após a morte. E se não houver nada depois da morte, se não houver amanhã? Oi vei, é perturbador.

Entre as diversas formas de organizar a leitura semanal da Torá, na ordem que seguimos a parashá Acharê Mot (literalmente Após a Morte) vem antes da parashá Kedoshim, Santos. A primeira cita o que aconteceu após a morte de Nadav e Avihu, dois dos filhos de Aharon, que morreram após oferecerem um “fogo estranho” a Deus. Na última lemos que Deus ordena a Moshé que fale ao povo: “Diga a eles: Vocês serão santos, porque Eu, o Eterno seu Deus, Sou Santo”.

Os mais afoitos poderiam imaginar que, após a morte, todo mundo vira santo. Depois que se foi, ficam as boas ações, os elogios, as obras de caridade que ninguém sabia que ele ou ela fazia, todo mundo que foi ajudado, as palavras de estímulo, os momentos de heroísmo e de bondade irrefutáveis, dignos do mais humilde dos seres. Ninguém roubou, ninguém enganou, ninguém falou mal dos outros. Morreu, virou santo. Mas suponho que não é disso que a Torá esteja falando.

O primeiríssimo ponto a cumprir para ser santo é: a pessoa deve respeitar a mãe e o pai, e só depois vem preservar os dias de Shabat. Conta um midrash que os filhos de Aharon não morreram por oferecer incenso a Deus, uma prática religiosa supostamente estranha à de Israel. Nadav e Avihu teriam morrido por desrespeitarem seu pai, por quererem vê-lo morto e tomarem seu lugar. Segundo o midrash, Deus percebeu e os advertiu: “Vocês querem enterrar o pai de vocês? Veremos quem enterrará quem”. Reverenciar, respeitar, honrar a mãe e o pai: primeiro mandamento para ser santo. Não à toa, dizem alguns, o mandamento de honrar pai e mãe é representado nas Tábuas da Lei na mesma altura que o mandamento de honrar a Deus.

Não à toa, na parashá Kedoshim, quando Deus nos ordena que sejamos santos, encontramos uma das mais belas mitsvot em toda a Torá: “Veahavtá lereachá camôcha”, ame o teu semelhante como a ti mesmo.

Se há vida após a morte eu não tenho ideia. Mas se houver, esta será santificada somente se na vida antes da morte formos capazes de amar cada ser humano com o mesmo amor com que somos capazes de amar a nós mesmos.



Uri Lam (Texto) e Rosália Lerner (Aquarela) - Fonte: Congregação Israelita Paulista

2.4.10

Pessach


O Mistério do Guefilte Fish no Seder

Conta-se no Talmud (Horaiot 10a) que Rabi Gamliel e Rabi Iehoshua estavam navegando juntos. Gamliel levou para a viagem a quantidade exata de pão conforme o tempo previsto de viagem, mas Iehoshua levou consigo pão e uma porção extra de farinha. A viagem durou mais do que o esperado, a provisão de pão de Rabi Gamliel acabou e o que manteve os dois sábios foi a farinha extra de Rabi Iehoshua. Gamliel perguntou a Iehoshua: “Como você sabia que teríamos um contratempo?” Iehoshua respondeu: “Eu verifiquei que há um astro no céu que aparece a cada setenta anos, e que se aparecesse agora, poderia nos desviar da rota.” Surpreso, Gamliel perguntou novamente: “Você é tão sábio, por que precisava subir neste navio para obter seu sustento?” Rabi Iehoshua respondeu: “Antes que fale de mim, conheça dois alunos meus que estão em terra firme, Rabi Elazar e Rabi Iochanan. Eles sabem dimensionar exatamente quantas gotas existem no mar, mas não têm o que comer e nem roupas para vestir.”

Os rabinos do Talmud viveram cerca de mil anos depois que o Povo de Israel entrou no meio do mar, por terra seca, naquele dia que separou os tempos de escravidão do início dos tempos de liberdade. Rabi Gamliel levou para sua viagem a mesma quantidade de mantimentos que levaria para qualquer viagem. Rabi Iehoshua, por sua vez, entrou no mar prevenido: conforme a historia, levou em conta a configuração do céu, tão importante para todo navegador quanto o mar, como nos diz Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Muito se discute, a respeito da saída do Egito, sobre os motivos pelos quais os israelitas foram ordenados por Deus a levar tanto ouro, tanto gado, tanto tudo para a viagem. Afinal, era muito mais do que o necessário para uns poucos meses de caminhada pelo mar de areias. Talvez eles não soubessem, mas Deus sabia que algo poderia desviá-los da travessia comum. Era preciso mais do que matsot feitas às pressas na saída do Egito se quisessem levar a maior das aventuras de Israel adiante, aquela que faria de nós o Povo de Israel.

Na continuação do relato do Talmud, Rabi Gamliel lembra-se que quando estavam para subir no navio para trabalhar, ele convidou os alunos de Rabi Iehoshua a virem com eles, mas eles não vieram. De nada adianta saber dimensionar quantas gotas de água há no mar se não houver disposição de entrar no mar.
Talvez este seja “o mistério do Guefilte Fish no Seder de Pessach”. A mesa do seder é o nosso navio. Ao nos sentarmos nela, entramos no mar, em terra seca e segura, em direção à liberdade, exatamente como fizeram nossos antepassados quando cruzaram o Mar Vermelho. O peixe não nasceu em embalagens plásticas nos supermercados. Precisamos trabalhar para comprá-lo. Mais do que isso, é preciso entrar em ação para recolhê-lo das águas. De nada adianta se dedicar obsessivamente aos detalhes do que significa cada gota do mar se não tivermos a coragem de entrar no mar para pescar. Às vezes a escravidão que precisa ser deixada para trás é a escravidão das teorias, do planejamento excessivo, das ideias brilhantes que ocupam tanto espaço no papel ou na memória do computador.

Nossos sábios nos ensinaram que devemos nos dedicar à Torá, mas também devemos aprender a nadar. Quando a Hagadá de Pessach nos diz: “Quem tem fome, venha e sente-se conosco”, ela espera que cada um de nós cruze o mar e vá em direção a quem tem fome de comida, fome de conhecimento, fome de religiosidade, fome de idishkeit, fome de viver judaicamente, e convide-os todos para se juntarem a nós, ou em nossa metáfora, que subam para dentro do navio e cruzem o mar conosco.

Navegar é preciso, arregaçar as calças e saias e entrar no mar é preciso – mesmo que a água às vezes bata no nariz − se quisermos em mais sete semanas nos encontrar no monte Sinai para receber novas instruções, se desejarmos renovar o nosso pacto com Deus quando Ele novamente nos entregar a Torá.

Chag Pessach Sameach!
Uri Lam, de Jerusalem

(Fonte: Congregação Israelita Paulista)

28.2.10

Tetsavê

A Torá da Vida manda destruir e matar?!

A Torá, que manda escolher pela vida de todos, ajudar a viver melhor, não matar, evitar o sofrimento de tudo o que vive, manda apagar um povo inteiro, o povo de Amalek.

Como é possível?

Infelizmente existiram e existem ainda hoje leituras fundamentalistas de nossos textos, que não procuram o espírito sublime existente além do pé da letra e ficam ensinando, ao lado da santidade da vida, mensagens tão terríveis como esta.

Nosso ponto de partida é totalmente contrário. Nós assumimos que a Torá não pode mandar literalmente destruir, apagar um povo inteiro e matar indiscriminadamente. Essa não pode ser a nossa Torá, esse texto não pode ser um mandado divino. Mesmo que possamos acreditar que a razão humana não tenha todas as respostas e que a percepção humana da ética não seja o único parâmetro do bem, mandar apagar um povo inteiro nos soa totalmente alheio ao conceito da Divindade. Por isso, por uma profunda fé na Torá e na sua ética é que não apenas nos permitimos interpretar de outro jeito, mas acreditamos que essa deve ser a verdade escondida por trás do texto. Longe de toda manipulação, ao interpretarmos contrariamente ao sentido literal e fundamentalista, acreditamos estar cumprindo com o nosso dever de procurar a verdade divina e religiosa da Torá. Acreditamos também, deste modo, que continuamos com fidelidade a tradição de nossos sábios, que em muitos casos fizeram o mesmo, pela mesma razão e do mesmo jeito.

Nossos sábios acrescentavam relatos ao texto original. Não apenas o interpretavam com elasticidade, mas também lhe atribuíam informação que não aparece nele. Assim, quando inexplicavelmente Abrahão aceita, em silêncio, sacrificar seu filho e caminhar com ele silenciosamente até o altar de sua suposta morte, os sábios estabeleceram alguns diálogos que se produziram entre pai e filho, como esperavam de uma atitude humana diante de semelhante acontecimento. Só que esses diálogos não aparecem na Torá. Quando Caim matou Abel e a Torá não conta mais nada sobre o encontro humano entre os dois irmãos, o comentário dos sábios completa o texto com vários diálogos inexistentes na Torá. Quando Deus decide apagar o mundo através de um dilúvio e a Torá apenas detalha que a corrupção subiu até o céu, os sábios acrescentam todos os detalhes dessa corrupção, porque se não fosse assim a crueldade do dilúvio invalidaria a sua condição divina.
Os sábios disseram ao longo dos séculos: “Não é possível que um Deus, o nosso Deus, o Deus de toda a Humanidade, simplesmente erre, conclua que a corrupção foi demais e a apague da face da terra com um dilúvio. Esse seria um Deus cruel, que erra, que não tem paciência, sem perdão, sem compaixão”. A culpa humana deve ter sido muito maior do que parece e as possibilidades de correção devem ter existido. Caim e Abel devem ter tido algum diálogo humano antes da tragédia. Abrahão e Isaac mais ainda.

Quando a própria Torá reclama pela vida, a sensibilidade contradiz a si mesma se não a interpretamos para além do pé da letra. A própria Torá exige um diálogo criativo com o leitor que envolva a sua ética e a sua história pessoal.
Por isso entendemos que o texto que se acrescenta à parashá da semana, neste Shabat, por ser o Shabat anterior a Purim, que convoca a apagar a memória de Amalek, deve ser interpretado para além do sentido literal.

Amalek atacou o povo de Israel por trás e mais, atacou os mais fracos, as mulheres, as crianças, os idosos e os doentes. Assim, Amalek representa não apenas a traição, mas principalmente a atitude de procurar a fraqueza do próximo não para ajudar, mas para bater. Lembrar isso e ao mesmo tempo apagá-lo da terra significa lutar contra essa atitude em todas as circunstâncias: em casa, na família, nos negócios, na comunidade, na sociedade. Apagar Amalek em termos positivos significa buscar sempre o bem do próximo, o lado forte e positivo e, ao descobrir sua fraqueza, contribuir para evitá-la. Ao invés de bater nela, abraçá-la a e ajudar a transformá-la.
Shabat shalom
Rabino Ruben Sternschein

31.1.10

Beshalach



“Bendito sejas Tu, Eterno nosso Deus, que preserva o chão sobre as águas.” Em nosso sidur esta é uma das bênçãos do alvorecer.

Ter um chão firme onde colocar os pés parece algo simples. E, no entanto, vivemos hoje um tempo em que terras firmes não são algo tão óbvio assim. Em São Paulo as chuvas têm transformado a vida na cidade em um caos e muitas vezes em tragédia. Em Israel, as intensas chuvas deste ano, que não deixam de ser uma bênção, têm gerado também diversos transtornos. Já no Haiti, como todos temos infelizmente acompanhado, a terra tremeu sob os pés de seus habitantes e levou muitas vidas embora.
Os rabinos do Talmud sempre enfatizam que jamais devemos nos esquecer do dia em que saímos do Egito. Ao mesmo tempo em que este foi para nosso povo um cativeiro, quando houve a chance de sair teve quem decidiu ficar, porque pelo menos a terra era firme, havia comida e um teto sob o qual dormir. A opção da liberdade proposta por Deus através de Moisés era tanto motivo de alegria e alívio, quanto de incerteza e medo. Não havia nenhuma garantia que, ao se deixar o Egito, se chegaria a algum lugar melhor.
“E vieram os filhos de Israel para dentro do mar, em terra seca. E as águas estavam para eles como muralhas à direita e à esquerda.” (Êxodo 14:22) Sempre que lemos esta fantástica travessia, vemos a imagem cinematográfica da multidão atravessando duas muralhas de mar. Como deve ter sido esta travessia aos olhos de cada pessoa? E aos olhos de uma criança? Rabi Nehorai nos conta (em Midrash Raba, Beshalach) que quando o povo de Israel entrou no Mar Vermelho, entre eles havia uma mulher que levava seu filho pela mão, e ele chorava muito. Imagino esta criança puxada por sua mãe, chorando, atordoada entre a multidão de gente, carroças e animais, enquanto muralhas de água rugiam ameaçadoras como se pudessem desabar sobre todos a qualquer minuto. Neste momento a mulher estendeu a mão, pegou uma maçã, lavou-a nas águas do mar e a deu ao filho.
Recordo-me de uma história que me foi contada por um sobrevivente da Shoá. Aproximava-se o final da Segunda Guerra Mundial. Ariê estava em um campo de concentração. Ele e um companheiro carregavam um panelão de sopa para os internos quando a força aérea americana sobrevoou o campo e passou a bombardeá-lo. Em meio à chuva de bombas, seu amigo, assustado, correu para o galpão e escondeu-se sob a mesa da cozinha. Ariê decidiu agir diferente: sentou-se e começou a comer a sopa do panelão. “Naquele momento eu estava morrendo de medo, mas também de fome. Então pensei: Se morrer, pelo menos que seja de barriga cheia”, comentou comigo. Ariê não só sobreviveu, como logo depois deixou o campo com os demais sobreviventes, participou da chamada Marcha da Morte e enfrentou inúmeras outras situações de perigo. Alguns anos depois chegou ao Brasil, reconstruiu sua vida e contou sua história.
As manchetes dos jornais nos contam que foram encerrados os serviços de resgate após o terrível terremoto no Haiti, e que aos poucos seus habitantes reconstroem suas vidas. Em meio à destruição e às ameaças de novos tremores de terra, as equipes de auxílio de Israel se destacaram pelo modo como salvaram pessoas dos escombros, por seus sofisticados hospitais de campanha e pelo calor humano, relatado tanto por haitianos quanto pelas equipes dos demais países. Eles não eram capazes de conter as forças da natureza como Deus um dia conteve as águas do Mar Vermelho, mas os israelenses estenderam a mão aos haitianos com o mesmo carinho e presença que aquela mãe estendeu uma maçã ao filho. Eles ajudaram a cada haitiano que puderam, cumprindo à risca o que nos ensinaram os rabinos do Talmud: “Quem salva uma vida é como se salvasse o mundo inteiro”.
Centenas de milhares de israelitas pereceram no deserto, na longa caminhada após a travessia do Mar Vermelho. Milhões de judeus foram assassinados na Shoá. Mais de cem mil haitianos morreram vítimas do terremoto que sacudiu seu país. Mas em todos estes casos a solidariedade e a força do indivíduo não pereceram. Estender a maçã, oferecer tratamento aos feridos e encarar o perigo com coragem são mais do que bênçãos; significa cumprir a mitsvá que nos foi ordenada por Deus: Escolher pela vida, pela vida de cada indivíduo e pela própria vida.


Shabat shalom e Tu b’Shevat Sameach
Uri Lam, de Jerusalém

(Fonte: Site da Congregação Israelita Paulista - CIP.org.br)