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13.2.11

O Judeu da Mala Amarela

Em memória ao meu avô Simão Ostrowiecki Z”L

Meu avô faleceu essa semana, aos 90 anos de idade. Ele adorava contar piadas. Uma de suas preferidas era a história da mala amarela. Certo dia, num trem polonês que se dirigia a Varsóvia, entra um anti-semita. Vendo o bagageiro totalmente lotado e percebendo que entre os viajantes havia um judeu, o anti-semita sorri e se aproxima:

- Judeu, tire sua mala daí de cima porque eu quero colocar a minha!
- Qualé, a amarrrélah? pergunta o judeu com voz preguiçosa
- É! A amarela!
E o judeu ignora completamente o homem e volta a dormir. Novamente o anti-semita vem à carga.
- JUDEU, VOCÊ ESTÁ SURDO?! TIRE JÁ A MALA SENÃO VOU PEGÁ-LA E JOGAR PARA FORA DO TREM!!!
- Qualé, a amarrrélah? A voz permanece tranqüila e sonolenta
- Claro! Sim! A AMARELA

Novamente, o judeu fecha os olhos e tranquilamente encosta a cabeça no banco. Enfurecido, o anti-semita abre a janela, arranca a mala do bagageiro e a joga para fora.
- HAHA! Viu só judeu, joguei a mala fora!!! Ela se foi!
- Qualé, a amarrrélah?
- Mas que coisa!! Sim, a amarela.
- A amarela não é minha…

A família sempre adorou escutá-lo contando as piadas. Essa era especialmente apreciada pelo delicioso sotaque europeu e tom inocente com que meu avô contava, ano após ano, a mesma piada. Apesar de ser uma peça de humor, poucas histórias poderiam representar melhor o espírito de um tempo e de um mundo que já não existe mais. A Polônia dos anos vinte, onde meu avô cresceu e foi educado, era um planeta diferente do que vivemos hoje. A maioria das pessoas vivia no campo, praticamente ninguém possuía automóvel ou havia entrado num avião. As pessoas viviam da agricultura e do comércio, andavam de carroça e sabiam pouco do mundo exterior. Celulares, computadores, Internet não existiam ainda nem nas obras de ficção. Naquele mundo ordeiro havia dois tipos de pessoa: os poloneses, cristãos, normais. E havia os judeus. Meu avô pertencia ao segundo grupo e esse fato decisivo moldaria sua vida. Posso imaginar perfeitamente meu próprio avô protagonizando a história da mala amarela: o mesmo tom inofensivo, a mesma ingenuidade mascarando uma profunda sabedoria, a mesma resignação e senso de sobrevivência num mundo no qual ele tinha pouca voz. A Europa pertencia aos europeus e os judeus eram claramente vistos como intrusos.

Alguns anos mais tarde, já com a guerra e a ocupação nazista em curso, contava meu avô que ele em certa ocasião estava com o cano de uma arma na cabeça, apontada pelo soldado alemão do campo de concentração. Meu avô instintivamente começou a rir. O alemão olhou incrédulo para aquele homem impotente, prestes a morrer e perguntou porque ele estava rindo: “hahaha… que mau negócio! Você está prestes a desperdiçar uma boa bala alemã com um mero judeu que já vai morrer de qualquer jeito! Hahaha que péssimo negócio”. Simão conta que em seguida o nazista resolveu guardar a arma e desistiu de disparar.

Esse espasmo de genialidade e criatividade lhe salvou a vida. Astúcia imensa que, tal como num golpe de judô, usa a força do oponente para derrubá-lo. Ele era assim. Em poucos segundos avaliava uma situação e sabia o melhor caminho a seguir. Doente, impotente, sem ninguém a quem recorrer, Simão se manteve alerta, enfrentou pesadelos e horrores sem paralelo, viu cenas que jamais lhe sairiam da cabeça. E sobreviveu. Hoje o nazismo está enterrado enquanto a família do Simão segue forte no caminho judaico.

Ser testemunha ocular do mal absoluto não abalou em nada a sua disposição para o bem. Já logo nos primeiros anos após a guerra casou-se com minha avó Raquel, uma companheira fiel e esposa exemplar que o acompanharia nos próximos 65 anos. Rapidamente se tornou conhecido por ajudar os outros. A partir das cinzas, colocou em prática sua genialidade nos negócios e com o fruto do seu trabalho sustentava a família, os irmãos e ajudava amigos a se estabelecerem na vida. No início da década de 50 partiu da Alemanha em direção ao Brasil, país que o acolheria de braços abertos. Ao iídiche, hebraico, polonês e alemão, acrescentou ainda o português ao seu status de poliglota sem estudos. Teve dois filhos, trabalhou duro, construiu um lar e ajudou os outros. Não havia causa judaica para a qual Simão dissesse não. Não havia um amigo ou conhecido que viesse pedir algo para quem ele negaria ajuda. Ele adorava os negócios, o comércio, o câmbio. Fazia cálculos complexos de cabeça. Sabia que trabalhar significa agregar valor e que não existe vida plena sem trabalho.

Quando a velhice se aproximou, a providência divina entendeu que Simão talvez ainda não tivesse recebido a cota de sofrimento que deveria. Já com mais de 80 anos de idade, recebeu a notícia da perda do filho Israel, meu pai, desaparecido em um acidente no mar. Se enterrar o pai é o fardo de todo filho, a lógica se inverteu de forma peculiarmente cruel, tendo o pai que agüentar essa tragédia e não ter nem um corpo sobre o qual podia chorar. Recebeu mais esse golpe com a força espiritual que lhe era única e concentrou suas atenções em ajudar o neto a estabilizar a empresa que também tinha ficado órfã. Durante os oito anos seguintes, Simão se tornaria um habitué na empresa, ajudando no que podia, cuidando das compras de mercadoria e encantando a todos com seu jeito especial. Certa ocasião, após eu ter pedido categoricamente para ele não comprar mais nenhum produto devido à falta de espaço, ele se sensibilizou com a história de algum fornecedor de sucata. Cedeu então e comprou mais um monte de coisas para as quais não tínhamos espaço nem interesse. Fiquei tão enfurecido que mandei despejar o excesso de sucata na casa dele, no meio da sala de estar. Minha avó deve ter adorado a cena daquelas pilhas de sucata contrastando com os tapetes e quadros que ela arrumara com tanto capricho.

Um homem paradoxal, cujo semblante e cujas ações eram bondade pura, mas cuja mente estava repleta das imagens de indescritíveis horrores do Holocausto. Um homem insuperável no brilhantismo e capacidade de fazer dinheiro, mas para quem os bens materiais não valiam nada. A riqueza lhe escapou da mão a vida toda tão rapidamente quanto ela vinha: ele a distribuía aos outros sem restrições. Um homem cético e que afirmava não crer em nada, seja em Deus ou nos homens, mas que cumpria à risca as tradições judaicas, rezava impecavelmente e fazia questão de transmitir a educação judaica aos descendentes. Simão sobreviveu ao Holocausto e pelo resto dos dias parecia que estava empenhado em vencer esse jogo criado por Deus chamado vida. Se existe um propósito divino e se tal propósito é arremessar contra o ser humano todo tipo de privações e desafiando-o a emergir mais forte e mais justo, então o Simão venceu, com louvor.

(Fonte: Pletz.com)

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