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30.1.11

Noé e o Dedo de Deus

Noé, como sabemos, foi escolhido para liderar aquela tropa de elite que Deus recrutou, através dele, para recomeçar Sua Obra. Em termos bem contemporâneos, digamos que Adonai resolveu dar uma limpada na banda podre da Humanidade, sendo que a banda podre correspondia a 99,9999999% dos seus efetivos na Terra. Parafraseando o Xexéo, a "pergunta que não quer calar" é a seguinte: passados alguns milhares de anos desde que a Arca enfrentou o Dilúvio, a Humanidade que aqui habita é melhor do que aquela de então? Indo mais longe um pouco: as enchentes, os tsunamis, os terremotos, o degelo das calotas polares, as mudanças de clima, enfim, os grandes desastres da Natureza, cada vez mais frequentes, serão, em síntese, um Novo Dilúvio, desta vez em doses homeopáticas, em ritmo de tortura chinesa? Se for isso, é porque a Humanidade evoluiu para pior. Faz sentido: a ponto de destruir seu habitat, provocando os tais desastres... Então Deus nem precisou trabalhar muito (nem sequer existir...) para dar sua resposta: foi só deixar a Natureza agir. No caso da tragédia na região serrana, fica óbvio: ao descaso público e individual, recorrente, ano a ano, corresponde a resposta, cada vez mais furiosa, da Natureza. Ou será o dedo de Deus? Bom enigma para os panteístas.

Encher linguiça é kosher?

Depois de alguns meses tendo a honra de escrever nesse espaço, finalmente aconteceu o que ocorre com todos os cronistas e que já havia me acontecido em outros espaços que ocupo, como a coluna semanal em O Globo: não saber sobre o que escrever. E, num espaço como esse, judaico, encher linguiça não seria a coisa mais kosher do mundo. A não ser que fosse linguiça de boi. Um boi supervisionado pelo rabino. Estilete na jugular, golpe rápido e preciso, para não liberar a toxina do medo da morte, medo que nos persegue nesse mundo, pois nesse mundo a morte é a única coisa certa, como diz o chavão. A vida, admita-se, é uma constante encheção de linguiça, de porco para uns, de boi supervisionado para outros. A encheção está em toda parte: as palavras com que preenchemos nossas relações com os outros ou conosco, em pensamento; o dinheiro com que tentamos encher nossas contas, ora para sobreviver, ora para desperdiçar; a comida com que enchemos nosso bucho; a nossa infinita capacidade de encher o saco; e o prazer que cada um busca da maneira que lhe convém, através do que é mundano ou do que é divino. Às vezes fica bom. Mais raramente, ótimo (como se diz, o ótimo é o inimigo do bom: se a gente persegue o ótimo, o bom se transmuta em ruim; se a gente não persegue nada, o bom é uma delícia). Não à toa, Deus, enquanto ia fazendo dia, noite, mar, terra, plantas, bichos, homem, mulher, ia dizendo, ou melhor, vendo, que o que fazia "era bom", e não "ótimo". Deus sabia que a Obra não ia resultar em Paraíso... e, como diz o outro, o otimista é um desinformado. Assim enchendo a Rua Judaica de sabe-se-lá que dizeres, vou compondo minha linguiça semanal, esperando que, na mistura, algo de bom se salve.


"Encher linguiça pode até ser Kosher. Não saber se expressar, pode não ser Kosher."

Aqui e Agora

Aqui e Agora
É difícil sempre saber o que nos reserva um novo ano. Hoje vi nos olhos de Dilma, por exemplo, um quê pueril, um desejo quase fetal de fazer carinho no Brasil e no mundo. Mas o mundo, quando se nasce para ele, é frio. Como diz Gilberto Gil em "Aqui e agora", "Morrer deve ser tão frio/quanto na hora do parto". Vir ao mundo, sair do aconchego do útero para um ambiente incerto, é tão assustador, diz Gil, quanto aquele momento que precede a hora de nos irmos daqui. A cara de Lula era desse frio na alma: se ele vai voltar mesmo nem ele sabe, pode até querer, mas saber não sabe, ninguém sabe. Para Lula era o frio da morte, para Dilma, era o frio de vir ao mundo, um mundo chuvoso como o do primeiro dia do ano. Mas havia aquele quê pueril em seus olhos. Um desejo de servir bem. Nos cumprimentos, abraçou brancos, negros, judeus, silvícolas, latinos e palestinos. O mundo está aí, o ano está chegado, frio, no maior calor de janeiro. Ninguém sabe nem nunca saberá nada. Por isso vamos terminar essa curta croniqueta de dia primeiro com Gil, de novo, em suas palavras que remetem ao budismo: "O melhor lugar do mundo é aqui/e agora". Pois nenhum momento é igual ao outro e, ao contrário do que dizem, a História nunca, nunca se repete. Vamos aproveitar. Shalom e, num certo aspecto, Shaná Tová.

19.12.10

Adolpho Lives

Quinze anos sem Adolpho. Parece que foi ontem que se completaram dez. Lembro que na época (2005) eu havia escrito uma crônica exaltando a atriz Luana Piovani, depois de ter passado horas numa mesa de Jobi de frente para a mesa em que ela estava sentada, exuberante. Luana leu e, num programa de TV (acho que o Saia Justa) retribui: "Eu queria mandar um beijão pro Adolpho Bloch". Na crônica seguinte, agradeci, e fiz uma ponderação usando o linguajar do personagem Nerson da Capitinga: "Só um detalhe, Luana: o Adolpho Bloch mó-rrreu". E aproveitei para lembrar os dez anos, que, por coincidência, se completavam naquela semana. Três anos depois, no centenário de seu nascimento, lançaria "Os irmãos Karamabloch" (Cia das Letras), saga desassombrada sobre a família, que reúne a multifacetada constelação de fatos e relatos que orbita sua existência. Aliás, vira e mexe alguém me chama de Adolpho, cartas para mim vêm assim endereçadas, e tem leitor que acha que tenho uns 120 anos. 


Adolpho e seu irmão Arnaldo, avô do assinante da coluna, vestido de cossacos, na Ucrânia.

Uma vez chegou uma correspondência para "Arnolfo" Bloch. Jamais me ofendo. Ao contrário, me oferendo: é uma honra ser chamado de Adolpho. O único infortúnio é o de pensar que não estou à altura de tal designação. Sou apenas um brasileiro descendente de judeus ucranianos, jornalista, botafoguense e escritor, que vem a ser sobrinho-neto de Adolpho. Ele, por sua vez, é um personagem, para além da história da imprensa brasileira, da civilização universal. Um antipatriarca bíblico amaldiçoado e abençoado por todas as forças, divinas e dibukianas, cosmológicas, naturais e sobrenaturais. Adolpho foi uma resultante, um mar formado por muitos rios, tentando expandir sua angústia, sua dor e sua (mais rara) alegria no oceano de nossa condição humana, por mais absurda que ela pareça. Se John Lennon ainda vive, eu digo: Adolpho lives, too. Se mora no Gan Eden ou só em nossas lembranças, uma coisa é indiscutível e provada através da razão e da emoção: ele vive. E pra não deixar passar, um detalhe: era Botafogo. Gostava quando o Flamengo ganhava porque o Brasil ficava mais feliz e vendia mais revista. Vamos lembrar Adolpho. E fazê-lo reviver nesse final de 2010, e que a Chanukiá ilumine a corrente que ele criou em nossa alma.

5.12.10

Israel vs Irã na Copa do Qatar

A cada quatro anos, quando começam as eliminatórias, fico me perguntando: será que desta vez Israel vai disputar, enfim, uma Copa do Mundo (a única para a qual a seleção se classificou foi a de 1970, sendo eliminada na primeira fase)? O incrível é que, hoje disputando pela UEFA, que reúne seleções europeias (já foi expulsa de várias ligas por estados árabes...) Israel fica sempre a um pontinho da classificação. Vem empatando com grandes seleções, como a França. Mas falta sempre um gás. Parece o Botafogo... nada, nada e morre na beira do mar Morto. Se disputasse pela confederação asiática, o papo seria outro, mas o páreo europeu é complicado e, ainda assim, os guiborim alvi-anil chegam perto. Hoje, quando vi o anúncio de que a Copa de 2022 será no Qatar, primeiro estado muçulmano e primeiro país do Oriente Médio a sediar o evento, refleti: imagina se Israel se classifica justamente para essa Copa? Dei uma pesquisada e soube que o Wikileaks vazou informação de que o Qatar tem tamanho pavor do Irã que, secretamente, já ofereceu seu espaço aéreo a Israel em caso de conflito com o país governado por Ahmadinejad... mesmo assim, imaginem a pressão de jogar num país muçulmano... Já pensaram numa partida entre Israel e Irã pelas oitavas, no Qatar? Que clássico! Seja como for, no Brasil, na Rússia ou no Qatar, está na hora de Israel fazer o dever de casa e divertir a galera que tem a estrela de Davi no repertório. Para mim, que já tenho a estrela botafoguense no peito, como diria o Galvão, haaaaaaja coração!!!!!

14.11.10

Sobre as Prostitutas de Inhaúma

"Confesso que até agora não entendi muito bem o bafafá acerca da questão do cemitério de Inhaúma, onde se reivindica a restauração das lápides das prostitutas judias ali enterradas, vulgas "polacas". Pelo que ouvi falar, no cemitério do Butantan de São Paulo, e na Chevra Kadisha Oaulista a questão já foi superada, as lápides restauradas e as identidades exibidas. Compreendo que uns e outros podem se ofender, na crença a meu ver não muito judaica de que há almas que não merecem ser lembradas por terem tido um destino menos feliz. Como se, entre todos os cidadãos judeus aparentemente ilibados, sepultos em mármores ornados, só houvesse almas boas e honestas... ou que, entre nossos homens e mulheres, patrícios e patrícias, bem casados ou bem casadas, não haverá, sempre, aquelas ou aqueles que tenham corrompido sua alma para unir-se em matrimônio por interesses que não dizem nenhum respeito ao amor. Os defeitos, as perversões, os percalços, são de todos, não à toa temos o Yom Kippur. Por isso digo sim e me engajo: que venham à luz os nomes de nossas prostitutas. O Eterno é um, e é para todos."

31.10.10

LUZ DE MEL EM CAXAMBU

Escrevo essas linhas minutos antes de o carro do (jornal O) Globo passar aqui embaixo e seguirmos para Caxambu, onde ocorre, anualmente, o encontro da Anpocs, entidade que congrega cientistas sociais, antropólogos, sociólogos e etnólogos brasileiros, sempre com presenças também do exterior. Este ano as discussões estarão especialmente quentes, pois o encontro, de terça a quinta, ocorre na semana das eleições e haverá um seminário de avaliação do governo Lula. Caxambu me faz pensar também em meus pais, Leonardo e Iná, que passaram a Lua de Mel nessa região das águas, acho que em Cambuquira. Num tempo em que os trens cruzavam o país, tempo que mal presenciei e do qual, imagino, muitos dos que me leem têm saudades. Fui concebido, por sinal, num desses pousos de águas e fornos a lenha, lá por agosto de 1964, meses depois do golpe militar. Nasci em abril de 1965 e o judaísmo, a comunidade, a família, foram minhas referências mais fortes. Minha mãe, das mais iídiches entre as iídiches, sequer me deixava ir às colônias de férias dos movimentos sionistas de esquerda, de forma que cresci meio alienado do que ocorria no Brasil, e mais informado sobre o que acontecia no Oriente Médio ou o que acontecera no Leste Europeu. Felizmente, apesar de minha família não ter lá muito apreço pelo ativismo libertário, eu tive uma ótima educação literária, sobretudo quanto aos clássicos estrangeiros, indo alcanças as belezas pátrias (entre as quais Guimarães Rosa é quase uma bíblia sobre o universalismo) mais tarde. O (Carlos Heitor) Cony, amigo da família, a certa altura serviu como catalizador da minha consciência política, que enfim emergiu quando chegaram os anos de abertura política. Bom, malas prontas para Caxambu, vou indo renascer, como sempre, pois a vida é isso: um parto permanente, em que o gozo é sempre mais raro que a dor, mas, se a gente sabe viver, compensa. Um shalom das águas para todos.

24.10.10

Os irmãos Coen e os rabinos

Às vezes a gente se vê sem assunto e apela para o vazio. Mas o vazio está cheio de coisas. Diversas. Diversidade: essa palavra mágica. Faz pensar no último filme dos patrícios americanos Irmãos Coen (Joel e Ethan) - produtores, diretores e roteiristas cultuados no mundo do cinema por suas produções sempre ousadas e diferentes entre si: paródias de Frank Kapra ("A roda da fortuna"), comédias delirantes ("O grande Lebowski"), tramas enigmáticas ("Fargo") ou westerns pós-modernos como o ultraviolento e perturbador "Onde os fracos não tem vez". A temática judaica em geral só atravessa seus filmes em rápidas citações ou naquilo que nem é dito.
Mas um de seus filmes mais recentes, "Um homem sério", é todo judaico, e em seu sentido mais plural e diverso: a questão dos rabinos. O filme começa com uma cena toda em iídiche. Um casal num shtetl lá pela virada dos séculos 19 pro 20 em sua humilde casinha recebe a visita de um rabino. A esposa acha que o visitante é um dibuk, porque o rabino em questão tinha morrido semanas antes, ela mesmo vira o corpo. O rabino com aquele jeitão calmo tenta convencer o marido do contrário. Ele diz, com suas barbas muito longas e aquele sorriso voz sábio e sereno dos rabinos mais alegres do leste: "Que mulher você tem, hem?". Depois de muito papo furado, saco cheio, a mulher, enfim, pega um garfo e espeta o coração da criatura que ela julga ser um espírito mau. O rabino silencia uns instantes, volta a sorrir e diz, novamente: "Que mulher você tem, hem?". Levanta-se, vai lentamente até a porta, e se despede anedoticamente, mais ou menos assim: "Eu sei reconhecer o momento em que não sou mais bem vindo em uma casa". E sai para a noite fria de neve, e a gente não sabe se ele é dibuk ou o rabino moribundo, pois a cena é cortada e o filme vai continuar contemporaneamente, com uma história que se passa nos EUA (não me lembro mais se NY), com um sujeito cuja vida está de cabeça para baixo, tudo errado, casamento trabalho dinheiro. Ele começa a procurar ajuda com rabinos, mas, a cada novo rabino, a vida vai se complicando ainda mais. O filme me fez refletir muito sobre o Talmude, uma tradição oral tardia que, embora emane dos ensinamentos da antiga Torá, contém paradoxos e contradições que se fazem entre as palavras de vários sábios, mostrando que a vida, mesmo para quem tem um livro sagrado, é sempre cheia de enigmas, e que, como na filosofia, embora busquemos sempre a verdade, ela pode estar compartilhada (palavra do momento...) entre as visões mais diversas, mesmo opostas. Diversidade no judaísmo, para mim, é isso aí: bom é ter vários rabinos debatendo entre si. Se a voz for de um rabino só é que a coisa começa a ficar complicada.  Shalom.

6.10.10

Os Ludeus

A vida toda Yoshke quis ser alguém. ‘Quem você quer ser, Yoshke?’, perguntava sua tia, Dona Luba Lubovitch. Yoshke olhava para um ponto indeterminado e dizia: ‘Eu quero ser alguém’. ‘Alguém quem?’, provocava Tia Luba. ‘Um grande rabino’. ‘Mas que tipo de rabino?’ ‘Um rabino astronauta’. ‘E o que faz um rabino astronauta?’. Yoshke refletiu. ‘Vai tocar shofar na Lua’. ‘Pra quem?’ ‘Pros ludeus’. ‘Ludeus?’ ‘É, os judeus que vivem no mundo da Lua’. Tia Luba se afastava então, deixando Yoshke com suas considerações, satisfeita com os progressos do sobrinho. Para Tia Luba, Yoshke, a esta altura com oito anos, já era um baita alguém. Tia Luba era a única a pensar assim. O resto da família, ao contrário, via os pensamentos de Yoshke como coisa de uma mente alterada. ‘Esse tem parte com Dibuk’, dizia sua mãe. ‘Ainda bem’, desafiava Tia Luba. ‘Puxou ao avô materno, que tinha sífilis’, dizia seu pai. Yoshke fazia que não ouvia, e talvez nem ouvisse mesmo. Passava o tempo enchendo uns cadernos de frases desgovernadas, ilustradas por desenhos feitos com lápis de carvão. Chegou a desenhar os tais ‘ludeus’, os judeus da Lua. E o rabino-astronauta, no centro, com seu shofar lunar. Não sei, até aqui, o que o futuro reservaria para Yoshke. Vou pensar a respeito. E um dia volto a falar dele. Shavua Tov.

28.9.10

Nas mãos de quem está a Paz?

Ouço rumores lá fora por minha janela no alto do Leblon. É o ronco de uma motocicleta misturado às turbinas longínquas de um avião. Outro dia ouvi morteiros de dentro de um cinema. Alguém murmurou, com ironia: “estamos sendo bombardeados”. Depois, ao ler os jornais com notícias sobre o fim da moratória dos assentamentos, refleti: vivemos numa cidade dita conflagrada, por conta do poder armado do tráfico. Ainda assim, quando ouço morteiros, só consigo rir da hipótese de estarmos sendo bombardeados, como dissera o gaiato no escuro do cinema. Aqui ocorre um meio confronto entre heranças sociais já conflitante e a oportunidade que se dá à bandidagem de explorar os ouros mais cobiçados pelo ser humano, quando esse assunto deveria, da produção à venda, do controle à saúde, estar nas mãos do Estado. Contudo, é lá, bem adiante, lá em Gaza, lá na Cisjordânia, que a chapa é quente. Perto daquilo, o Rio é uma Amsterdã, com suas ciclovias e canais onde nadam os patos. Ontem ouvi na CNN o Clinton dizer que acredita que “Israel can ‘deliver’ Peace”. A palavra “deliver” tem uma força incrível nessa sentença. Dá-nos a ideia de que a Paz está mais nas mãos de Israel. Às vezes eu também penso que sim, que Israel tem mais condições de “entregar” a paz sem se entregar, mas não vou me estender. Aí perguntaram a Clinton se ele acreditava que a Paz viria num momento em que a maioria não crê numa solução próxima. Ele disse: “Mas eu creio”, sem explicar muito bem o motivo. O Paulo Geiger diz que é coisa para uns 100 anos, mas que certamente virá a tal confederação verdejante de países e povos irmãos. A.B. Yehoshua aposta em 200. Não me arrisco a um palpite no meio dessa turma. Apenas palpita meu coração, como se estivesse sofrendo um ataque, quando leio que a moratória acabou.

20.9.10

Shalom, Salam, Saravá

Passado o Yom Kippur, reuni-me com duas amigas queridas, a escritora Tatiana Salem Levy – autora do belíssimo e premiado livro “A chave de Casa” – e Sílvia Naidin, ambas patrícias. Enquanto tomávamos uma garrafa de vinho australiano e saboreávamos fatias de pastrami com azeite, pão e geléia de figo, Tatiana falou sobre sua sensação de que, nas cerimônias judaicas que presenciou, falta-lhe a percepção de uma verdadeira espiritualidade. Tatiana dizia que se emocionava com cânticos, mas que essa emoção tinha mais um fundo afetivo, relacionado com a sua criação, do que espiritual.

Ela observou que, ao visitar outras experiências coletivas religiosas – como o Candomblé, ou ritos indígenas – encontrou ali muito mais dessa expressão mística. Eu entendo o que diz a Tatiana. Já frequentei comunidades ortodoxas, em pequenas sinagogas como a do número 17, Rue des Rosiers, das mais antigas de Paris, onde senti uma forte onda de energia e espiritualidade, e também certa vez, numa grande sinagoga sefaradita na Rue de Tournelles, na mesma cidade, onde presenciei tal fervor que me vi transportado para outro mundo. Mas será que o Avinu Malkenu que tanto me faz chorar no Yom Kippur é uma experiência de expressão espiritual, ou psicológica, emocional, afetiva?

Não sei. Também já visitei, como jornalista e cidadão de mente aberta, ritos africanos e tomei o ayahuasca na noite amazônica com índios do Acre e vi ali mais força que na maioria das cerimônias judaicas por aqui. Talvez os ritos judaicos tenham se cercado de mais de tradição e do aspecto de reunião social e perdido parte de seu caráter de “transe” coletivo, como se faltasse um tambor que vibre junto com a alma. Bom assunto para reflexão. E que comecemos esse ano numa onda boa, de paz e amor. Parafraseando o Osias, Shalom, Salam, Saravá.

'Meu Mix com Hashem'

Meu primeiro jejum foi aos 12 anos. Queria antecipar em um ano o dever a ser inaugurado só após o Bar-Mitzvah. Fui ao Kol-Nidrei, voltei para casa e passei o resto do tempo na horizontal. Uma hora antes de sair para a sinagoga de novo, tomei um banho pelando e saí do banheiro pelado a ponto de desmaiar, chamando minha mãe. Água quente e estômago vazio = pressão baixa. Mamãe correu à cozinha e fez um queijo quente com uma média. Quebrei o jejum antes da hora, mas o gosto daquele sanduíche jamais esquecerei. No ano seguinte, já filho do dever, fiz o jejum completo, sem água. Quebrei com coxinha de galinha e guaraná da estufa do botequim da esquina da Tenente Possolo e, mais tarde, na casa da vovó Judith, no Chopin, me entupi tanto de patê de fígado de galinha e conklietn que fiquei entalado, quase tive uma congestão.

E segui assim, ano a ano, os jejuns se estabilizando, até que, lá pelos
20, andava meio de mal com a vida e, ao sair do Kol-Nidrei, meu pai, fazendo as vezes de Dibuk, me convidou para ir ao Porcão. E fomos, e comemos linguiça, e tomamos caipirinha. Nos anos seguintes voltei a ser cumpridor, e durante o período em que morei na França - primeira metade dos anos 90 - aproximei-me de uns lubavitchers e fiz os jejuns mais rigorosos de minha vida, passando o dia na sinagoga, como os velhinhos.
Mais recentemente, tenho alternado a postura. Ficar sem água não consigo. E sem comida, depende do astral. Não deixo nunca de meditar, isso é garantido. É o meu mix com Hashem. Por exemplo, não como presunto nem porco, mas aceito outros frutos do mar. E se for fazer uma exceção com o porco, não é qualquer presuntinho Sadia não. Que seja um Pata Negra com figos, pois, como diz o ditado iídiche, se for pra comer porco, "que seja para babar de prazer"( az tzu essn chazer darf tzu rinen fun moil).

Deus que me perdoe, e chatimá tová para todos.


5.9.10

No tempo do Grande Templo (Arnaldo Bloch)

Sempre que se aproxima o ano novo judaico fico com uma inquietação. Não me refiro ao Yom Kippur, que vem no pacote da festa, exigindo sérias reflexões.

Refiro-me, sim, à inquietação de saber que nada será como antes, no tempo do Grande Templo da Tenente Possolo, que minha família frequentara desde seus inícios no país. A sinagoga ainda existe e exibe sua beleza e monumentalidade.


Mas não está mais ali o Feigenbaum z’l, fazendo as vezes de rabino, dando socos no púlpito exigindo o silêncio da congregação que se comportava como na arquibancada do Maracanã, mas com um espírito bom, aquele da anedota do analfabeto que assovia para falar com Deus.

Poucos ali rezavam de verdade, mas todos assobiavam para uma força maior. O Feigenbaum só lembrava que tinha que haver um limite, então o silêncio se restabelecia por alguns minutos, até, num crescendo, a zona imperar de novo.

Tio Adolpho, um dos maiores beneméritos, tinha a cota maior de quem era chamado à Torá.

Adolpho, Arnaldo e Manchetinha

Fiquei décadas imaginando quando chegaria meu dia, e quando enfim subi, achei que não ia suportar o peso dos rolos, e senti-me humilhado diante dos velhinhos em jejum que seguravam Torás mais pesadas que a minha como verdadeiros guiborim, e era deles que eu extraía forças para não deixar o Pentateuco cair no chão (já imaginaram?).

Quando se aproximava então o toque do shofar e a criançada corria, para a escadaria baixa e larga diante do altar onde receberiam uma chuva de doces, era como rumo à liberdade. E então todos cantavam, juntos, como num grande coral, o Avinu Malkeinu com aquela melodia oriental, e eu sempre chorava e tinha a noção exata e maior do pertencimento a uma tribo, microcosmo da humanidade que um dia entrará em comunhão e a paz reinará.

Chag Sameach.