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12.12.11

Vovô deve estar tendo orgasmos no Holám Habá

Estive afastado dessa Rua por um bom tempo (por culpa unicamente minha) e não sei com que regularidade irei aparecer por aqui futuramente. Talvez o critério que passe a me orientar seja aquele que me leva a escrever para esta edição: além das saudades, o fator fundamental foi o advento de "ter o que escrever", motor de toda motivação. Por exemplo, comecei a estudar iídiche semana passada e não podia deixar de compartilhar tal fato neste espaço. Sempre tive inveja do iídiche falado por meus pais, tios e patrícios mais velhos em geral, ornado por risos tão saborosos quanto um borbulhante "iúr" (ou será "iór"?) e de uma musicalidade que fazia contraponto ao alemão, língua irmã, tornado tão rude pela memória dos discursos de Hitler.


Meu avô Salomão bem que tentou me ensinar: ele mesmo confeccionava as apostilas em papel timbrado do Instituto de Meteorologia com sua grafia luxuosa a lápis, e tinha o cuidado de transliterar as palavras para o português, fazendo-as soar com o sotaque bessarabiano. Claro que ele sabia escrever iídiche em caracteres hebraicos (com os quais eu estava familiarizado, ma non troppo) como deve ser, mas sua intenção, ao transliterar, era facilitar minha vida.


Ocupado demais com minhas veleidades juvenis, não consegui persistir e acabei abandonando a empreitada. Mais recentemente, fui levado, por uma corrente caótica de emails, ao nome do professor (e cantor de coral, e advogado) Moysés Garfinkel.

A primeira aula foi numa salinha do Midrash, e lá serão as seguintes. Garfinkel não quis me dar vida fácil: começamos já com a grafia hebraica, e fiquei surpreso (Moisés também) com a facilidade que tive em decifrá-las: a proximidade de meus pais provavelmente criou um mimetismo inconsciente que me levou a intuir a maneira certa de fazê-las soar, não caindo na tentação de "falar hebraico em iídiche".

Meu objetivo final, além, é claro, de poder conversar com meus pais e ouvir o Osias fazer humor em iídiche (sempre disse a ele que seria um mestre do stand-up-comedy se quisesse), é de um dia poder contar, em iídiche, a piada do negro americano que, num banco de praça, lê um jornal iídiche nos EUA dos anos de caça às bruxas e é interrompido por um judeu que passa e pergunta, em iídiche: "Você é judeu"? O negro o olha com certo espanto e responde (em iídiche): "Só me faltava isso". Fico imaginando o sabor de contar essa história nesse idioma germânico dos judeus da diáspora leste-europeia tantos séculos atrás. Ou, quem sabe, de ler, um dia, Scholem Aleichem no original. Será que consigo? 

4.8.11

MESHUGAS


Duas semanas atrás choramos a morte de minha avó. Claro que é sempre mais profunda a dor da perda de um ente próximo. Mexe na nervura do coração e da mente. Do ente que somos de nós mesmos. Eis que, ainda na trilha do luto, as imagens de Vila Rosaly a latejar sempre, vejo as cinzas de Amy Winehouse serem sepultadas numa cerimônia judaica de cremação. Nem vou entrar aqui no mérito disso, sou um liberal, não vou logo julgando os modos das pessoas, com as liturgias é sempre assim, há a ortodoxia, as cismas, no sentido da intolerância e no sentido da separação, mas tudo que é feito com amor e sinceridade, a meu ver, vale (vem-me à mente a história do judeu inculto que assovia a Deus, na falta do que dizer, e é repreendido pela comunidade "culta" que sequer reza, apesar de ter ali seus livros). Vejo também na televisão o "triunfo" do terrorista norueguês e penso naquela história de culpar os muçulmanos por tudo. A morte está no espírito e nas mãos daqueles que veem nas ideias verdades absolutas e inquestionáveis. O dogma é uma precondição para a religião, mas felizmente ele é sempre rompido, e do diálogo subsequente se cria um equilíbrio. Sorte (entre aspas...) que o norueguês não era judeu, mas um filho desta Europa cristã que não quer pagar a conta dos tempos coloniais. Não, contudo, impossível que amanhã nos apareça um patrício sanguinário. Nenhum povo é melhor do que o outro, nenhuma religião é mais santa, e só a razão, temperada com o espírito, nos tirará do atoleiro final. Shalom.

24.7.11

Notícias da Rua Árabe

Cobrindo o referendo do Marrocos para O GLOBO conversei, hoje (quinta-feira), véspera do pleito em que o povo dirá sim ou não às reformas propostas pelo Rei Mohamed VI, com um professor de física, sobre a questão do Oriente Médio. Ele dizia como é importante para ele e seu povo a coabitação pacífica com todos os credos e todos os povos. Bem compreensível vindo de um homem bem formado que integra um país onde a moderação e a vontade de paz falam mais alto que as paixões políticas, exceção no atual mundo árabe, em que as primaveras pela liberdade se fazem com derramamento de sangue. Meu amigo físico dizia-se, contudo, decepcionado com o que se passa em Israel. Eu lhe respondi  que sou a favor de um estado palestino mas não abro mão, claro, da existência de Israel. Ele acha que enquanto Israel não tiver uma posição mais flexível, nada avançará, e acha que os EUA são condescendentes demais com o país. Eu respondi que sou ultraliberal, desde que I srael não suma do mapa e que, no Islã, figuras como Ahmadinejad e países com posições obscuras como a Arábia Saudita, que financiam o terrorismo, não ajudam em nada os palestinos. Ele argumentou que Israel também faz terrorismo, e disse: Somos todos filhos de Abrão. Ficamos assim, discordando na maioria dos pontos, concordando em alguns, mas com a mesma civilidade com que, no Brasil, judeus, libaneses, sírios etc conversam, às vezes em torno de tabuleiros de gamão. Isso, num país árabe, faz com que o gosto do chá de hortelã e os aromas indescritíveis das confeitarias daqui fiquem ainda mais gostosos. Parafraseando o Osias, vou pôr hoje o Salam na frente do Shalom, e resumir dizendo Paz.

23.7.11

A morte de Mashiah

Estava eu, em 1994, num almoço na casa do Rabino Azimov, o cabeça, até hoje, dos lubavitches franceses, discutindo a morte de Menachem Mendel Schneerson com outros convidados, todos ortodoxos, sendo eu, sempre, aquele carneiro passível de ser amealhado, com roupas normais e questões sempre incômodas que eles adoravam responder. Naquele dia eu perguntava o que aconteceria agora. Quem seria o novo líder. Um dos meus convivas me chamou a um canto e respondeu, rindo:

- Aron, a questão, agora, não é quem será o nosso líder. É como muitos de nós vamos compreender a morte do Messias antes mesmo de sua revelação definitiva.
Perguntei o que ele queria dizer com isso.

- Você está insinuando que o Rebe ERA o Messias?

- Bom, eu não sou daqueles que pensava isso. Mas uma boa metade dos lubavitches tinham certeza disso. Achavam que faltava só mais um pouco para, diante do fervor crescente do judaísmo mundial, ele se declarar como tal e promover todos os feitos que se espera de Mashiah.

- Quer dizer que ele desfilaria em carruagens por Jerusalém? Que os mortos ressuscitariam e as árvores dariam frutos eternos?

- Não sei se esperavam algo assim tão literal. Na verdade, apenas aguardavam o momento. Que ia ser ainda nos nossos dias, como sempre rezamos para ser.

Veio o almoço, sempre gostoso, de sábado, a fome altíssima de quem caminhou da Rue des Rosiers até os arredores da Place de la Republique, uns bons 8 quilômetros. Despedi-me e caminhei mais uns quatro até minha casa, próxima à Bastilha. Cheguei por volta das 22h. Não consegui dormir. O Messias, na melhor das hipóteses, estava morto, e a esperança de vê-lo, ainda que até a véspera eu não a alimentasse, se havia reacendido numa nova escala do impossível.

29.5.11

Não estarei vivo para ver

Um amigo meu da comunidade, também jornalista, costuma dizer que "Todo mundo está certo". Com a espirituosa frase ele alude ao fato de que qualquer argumento honesto, observado sob a ótica de quem o expõe, pode ser compreendido como válido, e que dois argumentos opostos podem estar certos. A filosofia já tratou bastante do assunto, mas a simplificação (ou complexificação...) proposta por meu amigo judeu veio à tona para que ele analisasse a proposta de Obama de uma paz que respeitasse as fronteiras pré-67. Dizia meu amigo: "É perfeitamente correto e justo pedir a paz nessas condições. Mas também é perfeitamente correto e justo não aceitar as condições." O que penso a respeito, eu? Fico também neste dilema. Outro dia ouvi um debate interessante na televisão, em que um analista político brasileiro observava que os movimentos sociais no mundo islâmico iriam, mais cedo, mais tarde, refletir na questão Israel-Palestina. Por um lado, o povo palesti no teria que, em algum momento, começar a pressionar os poderes constituídos da Autoridade, seja ela formal (Fatah) seja informal (Hamas), seguindo as tendências da contemporaneidade. Ou seja, os palestinos seriam motores da mudança no sentido de uma postura mais responsável por parte de seus governantes, na busca da criação de um estado. O analista dizia que também a sociedade israelense, em algum ponto, e através dos meios democráticos de que já dispõe, mudaria a feição do parlamento e de seus líderes na direção de um maior pragmatismo e, ao mesmo tempo, de um pensamento menos reativo e emocional na condução da paz. O fato é que em algum momento se há de ceder. Do contrário, Israel-Palestinos será eternamente um bolsão de instabilidade, sangue e dor. Creio que a paz virá. Não creio que estarei vivo para vê-la.

LOBATO E FREYRE: DUAS FACES DO PRECONCEITO

Com mediação do jornalista Andre Nigri, da Revista Bravo, aconteceu nesta quinta um debate sobre o racismo na obra de Monteiro Lobato no Centro de História e Cultura Judaica de São Paulo, no evento mensal conhecido como Café Bravo. Infelizmente tive que fechar este texto antes do debate. A revista, dedicada à cultura e dirigida a um público segmentado, publicou na última edição uma reportagem de capa com um dossiê completo sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato e vários amigos eugenistas, pregando o racismo mais repugnante e a "pureza da raça branca", a ponto de lamentar a não existência, no Brasil, de uma Ku Klux Klan. A reportagem da revista teve como gancho uma edição da Logo/A página Móvel, seção que edito no Jornal O Globo. Meses atrás, durante o carnaval, no auge da polêmica em torno do  tão querido escritor brasileiro - quando algumas vozes davam como verdade absoluta que o mesmo não era racista - levei a público uma série de t extos seus, a maioria publicados em livro, expondo seu verdadeiro pensamento. Aos que argumentavam que o racismo era comum na época, respondi que comum não significa hegemônico. Na reportagem da Bravo, André Nigri seguiu o rastro e descobriu novos textos, aprofundando ainda mais a discussão, e demonstrando que muitas figuras de grande porte intelectual do tempo de Lobato - como Cecília Meirelles - declaravam repulsa a toda a forma de preconceito racial. Para o debate, preparei uma outra variável que costuma ser tabu entre acadêmicos e historiadores: o antissemitismo de Gilberto Freyre, apontado inclusive por autores insuspeitos e sem vínculos especiais com a comunidade judaica, como darcy Ribeiro, num dos prefácios de Casa Grande & Senzala. Quem pela primeira vez me chamou atenção para isso foi meu saudoso tio Hélio Bloch, que me entregou um original marcado com os trechos mais chocantes. À época escrevi um artigo no Globo sob o título "O judeu de Apipucos", tendo como mote as recentemente descobertas origens judaicas de Freyre, em contraponto à suas ignomínias contra o povo de Abraão: o que diria se ele soubesse dessa herança? Num momento em que o mundo busca acentuar semelhanças em meio às diferenças, apontando para um futuro em que ambas tenham peso igual nas relações entre os povos, é sempre importante traçar tais paralelos, que unem judeus a outros grupos humanos que foram perseguidos através da história. Pois, ao contrário do que muitos apregoam, os horrores do pasado ainda estão vivos, não somente na memória, mas nos impulsos que ainda impedem que uns e outros se olhem como pares. E os judeus não estão livres desse tipo de sentimento, como todos nós sabemos, pois ouvimos atentamente não apenas as palavras sábias de nossos pais e avós, mas também aquelas que nos provocaram, dependendo do caso e do ouvinte, revolta e inconformismo. Na semana que vem, dou notícias de como foi o debate em São Paulo. Grato pela leitura, deixo meu abraço a todos e meu Shalom.

17.5.11

O OVO PODRE NA TERRA DE MOSHE

Estava lendo a respeito do ex-presidente de Israel, que leva o nome daquele profeta que recebeu as tábuas da Lei. Como pode ser ?, devem estar se perguntando, no túmulo ou através de seus descendentes ainda iludidos, aqueles velhinhos pioneiros que diziam, quando a gente era pequeno, que em Eretz Israel não existem ladrões nem veados, ou melhor, que judeu veado é uma ficção, denotando aí o proverbial preconceito: não só existem judeus homossexuais aos montes, como judeus homofóbicos e racistas. E ladrões. Em Eretz Israel e na Diáspora. O bom de ser judeu, nesse aspecto, é, em primeiro lugar, saber que somos um povo essencialmente plural, multiétnico, multinacional e multissexual, que se expande através não apenas dos colossos econômicos, como dizem os antissemitas, mas da literatura, das artes, das idéias, da filosofia, das ciências humanas. Em segundo, saber que, na terra onde o povo judeu conquistou, politicamente, seu direito à autodetermi nação (conforme rezava a Revolução Francesa), um herdeiro de Chaim Weizman pode ser condenado a sete anos de prisão por estupro. Bem diferente da maior parte do Islã, onde, infelizmente, mulheres ainda são apedrejadas. Ou da Justiça brasileira, onde um obscurantismo quase medieval trava, amiúde, o caminho da verdade. Mas cuidado: há no seio de nossas comunidades um ovo de serpente velho e podre, que deseja um Am Israel silencioso e hegemônico, onde, do alto de um púlpito, algum canastrão disfarçado de profeta proclame ao seu rebanho: nós somos os únicos, os justos, os escolhidos, os ilibados. Neste dia, a luz que ainda faz de Israel uma ilha de democracia no Oriente Médio, e do povo judeu no mundo inteiro uma matriz de idéias e de História, se apagará.
Shalom.

13.5.11

OBAMA MELECH YEHUDIM


Quando Obama estava para ser eleito, muitos, mas muitos mesmos, judeus cariocas me disseram que tratava-se de um inimigo de Israel, com nome árabe e posições "liberais" (pelo jeito, virou um palavrão no cerne da nossa comunidade o sentido clássico, político, da palavra...). Numa palestra aqui no Rio promovida pelo Hillel e mediada pelo Osias Wurman, o judeu Caio Blinder quase foi linchado moralmente por ter ousado dizer não acreditava nem um pouquinho na tese de que o novo presidente, fraco, estaria a serviço dos interesses antissionistas. Bom, nos últimos anos, com exceção de uma ou outra bravatazinha retórica dizendo que Israel exagerou aqui e ali (e exagerou mesmo!) - que em nada diferiam dos pequenos esporros pra palestino ver que Bush dava de vez em quando - nada disso se revelou. Barack Obama tem sido tão amigo de Israel quanto os governos predecessores. Talvez até mais. Agora, quando ele executa Bin Laden e joga seu presunto ao mar no melhor estilo Bush, pouco se lixando pro direito internacional, e usando um discurso de velho Oeste misturado com Lei de Talião, os mesmos judeus cariocas soltam hurras. Obama Melech Iehudím! Há até entre nossos patrícios aqueles que aproveitam para papagaiar a tese estúpida de que tortura vale a pena. Quero ver quando torturarem a iídiche mama deles com base em alguma espionagem de rede social numa realidade em que nossas liberdades estiverem, eventualmente, restringidas e tenhamos que formar uma nova linha de partizanim. Quanta cara-de-pau! Felizmente, como sempre, em minoria, há judeus coerentes que, ao mesmo tempo que jamais entraram nessa paranóia clássica de proclamar Obama um potencial Alá do Apocalipse, têm coragem de criticar os extremos a que chega um liberal (argh!) em campanha eleitoral. E de ver Obama como apenas mais um democrata na presidência dos Estados Unidos, dos males o menor em vistas do crescimento da hidrofobia e do fundamentalismo no seio do Partido Republicano.

Bodas em Windsor: e eu, e o judaísmo, com isso?

Compreendo que o casamento na Casa de Windsor movimente o mundo e encha de dinheiro os cofres do Reino Unido. Mas não consigo abrir mão de meu absoluto desinteresse pelo assunto. Um desinteresse que resvala no desprezo (uns dirão despeito, mas juro que não). Jamais nutri qualquer simpatia especial por Diana ou por Charles (por Camila PB até me interesso, já que se trata de figura autêntica, desestabilizadora das verdades definitivas da monarquia que, ano a ano, revelam-se cada vez mais turvas e, paradoxalmente, vazias). Não chorei a morte de Diana. Jamais as lágrimas estiveram tão longe de se precipitar a meus olhos. Na verdade, fiquei com os olhos tão secos que tive que pingar colírio. Morreu, morreu, diria um tio meu. Chorei, sim, a morte de John Lennon. Por sinal, ele devolveu condecoração da Rainha da Inglaterra, em nome da paz. Como qualquer ex-potência colonizadora, o país de que tanto gostamos quando o visitamos maltratou e subjugou povos distantes com grande crueldade e sempre sob a bênção da Rainha. Dane-se a Rainha. O que isso tem a ver com judaísmo? Não sei. Olho para o povo inglês e sinto pena de toda essa reverência sem conteúdo, calcada em algo que é só tradição. E olha que de trad ição nós, judeus, estamos até o pescoço, mas é tão caótico o arcabouço das nossas, que sempre se pode fazer um mix ideal para cada personalidade ou caráter. Respondam os que me lerem, e me digam se fujo demais ao contexto desta querida e democrática Rua Judaica (para me publicar, tem que ser bem democrática mesmo). O fato é que, semeado por esse friozinho que vem da janela trazendo-me alguma paz de espírito reforço minha determinação de querer que o príncipe e a princesa em bodas fiquem bem longe das minhas vistas, para que o outono no Rio seja mais gostoso. Isso é, ainda que de uma maneira bastante heterodoxa, uma maneira de dizer, e cultivar,
Shalom.

O 'matze-libre'

Tudo bem que o nosso querido matze (o pão ázimo sem fermento, que os yehudim produziam ao sol no êxodo do Egito) sirva para evocar o sofrimento dos anos que passamos no deserto. Que devemos comê-lo seco na noite do Pessach, mastigá-lo longamente a ponto de doerem as mandíbulas, em memória daqueles que pereceram em nome da liberdade. Tem um que é mais duro e denso ainda, matze shmurá, usado pelos mais religiosos, bem diferente deste industrializado que é crocante e parece cream-craker. Para amenizar essa dureza, e o amargor da raiz forte com beterraba (eu acho uma delícia...) há as bolinhas de matze, inofensivas e divertidas, fervidas no caldo de galinha, o yur da vovó, com tempero de aneto. Tudo isso é muito bom, muito gostoso. Mas devo confessar que a vida não seria a mesma sem os usos mais profanos desse estranho pão: ovo mexido com matze é um must. Misturado com requeijão, então... e o matze torradinho no forno, com manteiga? Pode ir també m com queijo prato ao forno, deixando derreter. E aquelas rabanadas com farinha de matze (essas eu acho até que são permitidas)? Fico imaginando um grande jantar só com matze treife. Uma vez só. Um ano só. Afinal, é difícil imaginar que, na longa travessia do deserto (40 anos!!!), não se tenham experimentado algumas variantes... com tanta cabra na área, e sabendo que o queijo tem doze mil anos de história, duvido que não se tenha partido para experiências mais radicais, experiências coalhadas, para dar uma variada. A questão é saber se foi às vistas de Moisés, ou naquela hora do recreio, quando o profeta foi receber as tábuas e o pessoal aproveitou pra beber do leite blasfemo do bezerro de ouro... seja como for, é de liberdade, ao menos de pensar, e de caçoar dos desígnios mais sagrados, que estamos falando aqui. Desde a criação do mundo, com queijo ou sem queijo, trata-se do livre arbítrio. Essa é a travessia que fazemos todos os dias, confrontando nossas crenças com nossos atos. De resto, o primeiro que fizer um livro de receitas kosher e não-kosher com matze e derivados vai fazer um bom tutu. Sem torresmo. E sem castigo.

10.4.11

Papa Obama no país do Patriota

Enquanto o vazamento das usinas japonesas inquietam o mundo e nos fazem pensar sobre nossas opções para matrizes energéticas, uma outra onda cobre o Oriente: a revolta Líbia, agora oficialmente endossada pelas nações, com abstenção do Brasil. A nova política externa nacional parece oscilar entre atitudes mais ativas de condenação às ditaduras (como o discurso recente do Brasil na ONU) e esta abstenção de ontem. Já ficou claro que Patriota não é Amorim, "ma non troppo". Paralelamente, vem aí Obama discursar na Cinelândia como um Papa. Temem-se protestos, e Patriota já avisou que os militantes do PT estão proibidos de fazer arruaça. Assim fica difícil mesmo ler os sinais de fumaça com que nossa chancelaria acena para os novos tempos de Dilma, a discreta. Ao menos uma coisa é certa: a apatia estratégica e a passividade do período Lula em relação a arbitrariedades e tiranias deu vez a algo diverso: relutancia, ao menos, é diferente de indiferença. Shalom e boas energias para os povos da Líbia e do Japão.

Alegria e horror de viver (from London)

Viajar é viver. Os horrores do mundo passam em pista paralela com o prazer. Londres, multiétnica, com seus contrastes... dizem que aqui os judeus não têm sido tão bem tratados, mas um dos primeiros museus na programação do Time Out é o Jewish... e dancei uma noite inteira com amigas goym num club onde havia negros, ingleses, árabes, travecos, heteros e gays. Cometi um excesso daqueles que fazem valer o ditado iídiche de que, se for comer porco, que seja para babar de prazer. Pois num desses english breakfasts comi o tal de black pudding, ou seja, sangue de porco embutido e condimentado. Hashem me respondeu com avisos intestinais gravíssimos, mas tudo tem um lado bom: para ir ao banheiro tive que abandonar a chatíssima continuação do Fantasma da Ópera (Love never dies) menos de 20 minutos depois de começar. Claro que nem voltei. Agora, sexta-feira, véspera de minha partida (ainda fico um dia em Madri na escala) vejo na BBC news as imagens do t erremoto no Japão e torço para morrer pouca gente dessa vez. Horrores do mundo em meio à alegria de viver. Penso nos que pereceram em todas as grandes catástrofes, pestes, incêndios e massacres. Nos pogroms e no Shoah. Resta respirar o ar frio do hemisfério e seguir caminho, curtindo aquilo que o sopro da Criação nos oferece. Logo mais, Shabat Shalom.

6.3.11

Moacyr e a folha talhada

A primeira vez que ouvi o nome Scliar não ouvi: vi, assinado num óleo sobre tela, natureza-morta de uma folha de árvore retalhada com pedaços de jornal na casa de meus pais. Tão lindo aquilo. Hoje está na minha sala. Era Carlos Scliar, muito amigo de minha saudosa tia Rosaly, outrora esposa de Alberto Dines. Aliás, a Orla Scliar, em Cabo Frio (onde meus tios tinham casa) é em sua homenagem. Só vim a conhecer pessoalmente seu irmão, o escritor Moacyr Scliar, e seu trabalho, quando Carlos faleceu, dez anos atrás. Não por circunstâncias de luto, mas por circunstâncias de acaso: uma palestra da qual participava ele, Osias Wurman e eu, promovida por alguma entidade que congrega judeus da América Latina. Foi num hotel daqueles antigos, escondido numa rua do Flamengo. Foi um bonito encontro, onde se falou sobre identidade. Preparei um texto especial sobre as múltiplas identidades que um judeu pode assumir. Religiosa. (Multi)étnica. Nacional. Univers al. Cultural. Democrática. Teocrática. Iberica. Russa. Diaspórica. Brasileira. Terminado o evento, Scliar veio me dizer que gostara muito do texto. Que eu devia guardá-lo, difundi-lo. Que estava muito bom o poder de síntese. Fiquei corado. Eu terminara de ler aquela que talvez seja sua obra mais brilhante, curiosamente, uma não-ficção que não tratava de imigração judaica para o Sul, mas de assuntos de interesse da sociedade geral. Chama-se Saturno nos Trópicos, e traça uma historiografia da melancolia, partindo da antiguidade, passando por Portugal e trazendo, via banzo escravo, via saudade lusa, via aculturamento indígena, via angústia árabe e judaica, a nossa grande tristeza brasileira. Estava tão impactado por aquele texto de alta erudição, beleza e poesia que recebi o cumprimento de Scliar quase como uma porrada e sequer tive palavras para comentar a sua obra! Mas isso seria o de menos: nos anos que se seguiriam, nos encontraríamos várias vezes, sobretudo em feiras liter ária. Jantaríamos, beberíamos, trocaríamos ideias sobre o mundo e a vida, mais que sobre literatura. Quando lancei minha saga familiar em 2008, ele foi um grande incentivador e difusor, e um dos primeiros a ler a obra. Mais recentemente, participamos, juntos, da coletânea "Primos", organizada por Tatiana Salem Levy e Adriana Armony, que reúne contos de autores brasileiros de origem judaica e árabe. Lembro-me do seu entusiasmo com o projeto. Quando soube que estava hospitalizado, inconsciente, fiquei perplexo. Scliar era daquelas pessoas que a gente não crê que morram. Hoje olho para a natureza morta de seu irmão e parece que vejo a folha de árvore talhada de letras, viva, se mover. Como uma folha de livro.

Os irmãos Coen e o judeu errado

Vi esta semana o western "Bravura indômita",  novo filme dos Irmãos Coen, talvez os mais prestigiados nomes da direção cinematográfica no mundo inteiro e também em Hollywood nos dias de hoje, o que é ótimo, pois sua obra sempre privilegia a originalidade narrativa e temática. Mas, embora este filme concorra ao Oscar em várias categorias,  quero falar do anterior, "Um homem sério", o único da dupla que tem temática explicitamente judaica. O filme abre com uma cena de 20 minutos que se passa num sthetl e é toda falada em iídiche (descrevendo diálogo de um casal com um rabino que pode ser um dibuk, segundo desconfiança da mulher) e, na sequência, se passa nos dias de hoje, contando a história de um personagem bem judaico, à Scholem Aleichem: aquele sujeito com quem tudo dá errado. Para entender o que se passa com a sua vida, o protagonista, então, recorre a vários rabinos de diferentes tendências. À medida que os ouve, contudo, a confusão de sua mente e de sua vida só aumenta. Para além do humor irresistível, os Coen, neste longa, parece que estão falando de algo que é inerente à cultura judaica e que só a valoriza: a diversidade de visões, opiniões, pontos de vista.  O próprio Talmude, texto tardio, com suas múltiplas interpretações e sentenças de diferentes sábios, mostra que, na prática do dia-a-dia, via tradição oral, o ensinamento da Torá não esgota as verdades. Muito pelo contrário, ele as complexifica! Por isso os judeus discordam tanto entre si, o que é desejável, rico, democrático, e é um espelho da diversidade que rege a sociedade como um todo, judaica ou não. Quando um judeu não reconhece esta riqueza, preferindo pregar a ideia de que, como numa máfia, é necessária, entre os judeus, a proteção mútua, o silêncio, o alinhamento automático a qualquer erro, ele está traindo o seu próprio pertencimento ao todo humano: se um judeu não pode apontar para o outro e evidenciar seu erro pelo fato de ele ser judeu,  ele autoriza um observador "de fora" a adquirir a crença de que o judeu se crê intocável, melhor, superior, imune. É o tipo de postura que semeia a discriminação, sob a justificativa de evitá-la.


RACISMO NUM QUIOSQUE NO LEME

Meus tempos de universidade foram essenciais em minha formação não apenas como jornalista mas, sobretudo, como homem. Eu vivia por demais atado à comunidade judaica e à família. Claro que já tinha ido aos botequins com meu pai, ao Maracanã, jogado bola com meninos de rua, mas, amigos mesmo, eu só tinha na tribo. Na folclórica Eco-UFRJ - onde estudaram Fátima Bernardes, Chacal, Bussunda e tanta gente boa famosa ou anônima - ganhei novos amigos, 99% não judeus, de todas as partes da cidade, do estado, do país e até do exterior (um peruano, um panamenho e uma boliviana faziam parte do meu novo círculo de relações naquele início dos anos 80). Bussunda, que foi meu colega, costumava também dizer isso: a faculdade abriu seus olhos para a diversidade humana. Por isso, ao receber a carta que abaixo transcrevo, de minha ex-colega de faculdade Elisa Barcellos (de quem perdi contato, ao contrário de muitos dos amigos da Eco, com quem me dou até hoje) se nti-me na obrigação de reproduzi-la aqui, pois diz respeito a todos que um dia foram discriminados, e pelo fato de a situação relatada ter acontecido num estabelecimento de nossa cidade. Segue, entre aspas, a carta:

"A gente tenta esquecer, acreditar que é tratado de forma igual, aí vem um porrada que dá um choque de realidade. O dia 16 de fevereiro de 2011 começou como um dos mais bacanas da minha vida. Um amanhecer lindo comemorava o aniversário de Dorinha, 5 anos de alegria, doçura, irreverência. Festa na escola, paparicação da família, dos amigos, a menina e todos felizes.
Para poder terminar a comemoração, com muita gente, como a menina gosta, e aproveitar mais esse dia de verão, foi marcado um encontro no início da noite no Espaço Ox, quiosque da praia do Leme. Lá, adultos nas mesas reservadas e as crianças brincando ora no parquinho ora na correria pela areia.
Saí de lá por volta das 22 horas, deixando meu irmão, minha cunhada, as crianças, família e amigos, todos felizes.
Pois eis que passando um pouco da meia-noite vem a bomba: Dorinha e Lia haviam sido impedidas de entrar, na verdade reentrar no local porque seriam crianças de rua. Ou seja: negras. Imaginar a cena me causou náuseas. Não por minhas sobrinhas estarem envolvidas. Mas porque crianças estavam sendo agredidas.
Crianças deveriam ser protegidas de todos os males do mundo, de todo o egoísmo, de toda a dor.
Minhas sobrinhas foram agredidas de uma das maneiras mais cruéis que existem. E tão pequenas terão que entender que não somos aceitos como iguais, que a ignorância de alguns é muito mais potente que o bom senso de muitos, que isso machuca, fere profundamente.
Mas também aprenderão que devem se impor. Apesar de toda dor, jamais deverão baixar o olhar ou se esconder.
Precocemente e de forma cruel, sei que o destino acabou de formar mais duas mulheres de garra.
Amo vocês, Lia e Dora."
Observação: o pai da menina está ainda em vias de registrar a queixa, e os jornais já estão alertados. Espera-se que, comprovada a denúncia, a funcionária e o estabelecimento paguem caro pelo crime de racismo.

13.2.11

A abdução do idealismo

Não sei se eu seria uma outra pessoa se tivesse frequentado as colônias de férias de movimentos como o Chazit. Ali o sionismo se unia a ideais de uma sociedade mais justa, em consonância com aqueles que regeram a criação do Estado de Israel. Há quem diga de boca cheia que os kibutzim foram a única experiência de socialismo que deu certo. Mas como eu ia dizendo, por excessos de zelo de minha querida mãe Iná (temerosa de que eu pegasse tétano ou tifo), fui salvo de vários tipos de provação, como acordar empastado, mas perdi também uma série de oportunidades de me enturmar com a "comunidade" num nível mais adulto, o que, àquela altura de minha adolescência tímida, teria sido bastante útil.
Quando, entretanto, surgiu a chance de fazer o Tapuz, eu não aceitaria qualquer negativa maternal. Contei com o apoio de papai na empreitada. E fui. No dia seguinte à minha partida, a saudosa Judith Goldfarb, mãe de meu amigo de infância, o artista plástico Walter Goldfarb, ligou para Iná às seis da manhã e, com sua voz peculiar, gritou: "Iná, você já soube?" Em estado de choque, certa de que se tratava de uma acidente de avião ou de uma guerra iminente em Israel, mamãe ficou muda, à espera da notícia. Judith aguardou a pausa e enfim disse: "O Preço do chuchu! Você já viu quanto está o chuchu?!".
Pois, fora o susto do chuchu, a temporada no Kibutz Urim, uma fazenda búlgara, compensaria em grande medida o que eu perdera não tendo participado das colônias de férias. Trabalhei como um verdadeiro agricultor, acordando às 5 da manhã no frio de zero grau do deserto de Neguev. Ao meio-dia, quando o clima se invertia e um calor senegalesco se instalava, vinha um trator trazendo café com leite e biscoitos de maizena. Ligavam o rádio e estava sempre tocando o Trem das 11, de Adoniran, não sei em que estação, com letra em hebraico.
Foram quarenta dias de labor dos quais guardo histórias saborosas sobre as quais nunca escrevi, mas que me deram o senso da solidariedade e da importância do suor coletivo para a construção de uma vida em comum sem vaidades torpes. Depois, passamos 20 dias visitando o país. Por mais que Massada, Jerusalém, o Mar Morto, Tel Aviv ou o Mediterrâneo tenham me impressionado, foi o cheiro de esterco de vacas do Kibutz Urim, o iogurte do refeitório, a fábrica de casacos Dubon, as plantações de nectarina e de melão, as festas, as fogueiras e as viagens psicodélicas com meus amigos (muitos eram ex-colegas do Liessin), que ficaram guardadas com mais pujança no meu coração.
Depois voltei para o Rio (alguns continuaram, foram à Índia, desbundaram naquele final dos anos 70). Eu estava ansioso Por seguir meus estudos de comunicação na ECO-UFRJ. Encontrara ali também uma família, uma comunidade: a comunidade geral, multiétnica, de vários credos ou sem credo nenhum. Nunca mais voltei a Israel, mas ouço dizer que os kibutzim não são mais aqueles: viraram empresas. Hoje os jovens vão antes à Alemanha e à Polônia para chorar o Holocausto numa espécie de parque de horror temático. E quando chegam a Israel não passam mais por aquele aprendizado das fazendas coletivistas.
Prefiro como as coisas eram nos meus 17 anos. Mesmo sem ter participado de nenhuma das marchas da vida, tenho inteira consciência, ou até maior, dos terrores pelos quais meu povo passou, que transcendem o Holocausto: as cruzadas, a inquisição, as perseguições na Europa Oriental, os pogroms. Sei também que resta muito pouco daquele idealismo em Israel ou na diáspora. Por isso tenho medo, hoje, de ir a Israel: não pelo risco de cair o avião ou de dar de cara com a eclosão de um conflito com os palestinos ou com o mundo árabe. Mas pelo fato de meu passado ter sido dali abduzido, rumo a um futuro em que tudo o que resta é o pragmatismo. Shalom.

'Desentupidora Adonai'


Deus salva, O Messias vem, O Todo-Poderoso disse, Jeová fez. Atribuem-se muitas ações a Deus, e muitos verbos as descrevem, até porque Ele é o próprio verbo. Não esperava, porém, ver o verbo "desentupir" associado a uma das atribuições de nosso senhor. Isso ocorreu quando dei de cara, em pleno trânsito da Rua Lineu de Paula Machado, com a van que aparece na foto. O carro, como mostram os dizeres na carroceria, pertence à Desentupidora Adonai, excelente para tanques, pias, ralos e esgotos. Achei graça mas ao mesmo tempo fiquei ofendido: para um ser supremo que dividiu o mar e a terra, desentupir uma pia é tarefa um tanto dispensável e, por maior que seja a sujeira do mundo e de nossas almas, esgoto não é trabalho para Adonai. E a frase à direita? 24 horas por dia. Ligou, chegou!!!! Ou seja, é só chamar que Adonai aparece. Fácil, né? Mashiah, Mashiah 24h por dia! Nem Shabat tem esse pobre Adonai que desentope pias. E a questão do uso do nome em vão? Nessa aí a Desentupidora Adonai vacilou feio, e por motivos torpes, comerciais!... Por outro lado, dá o que pensar se a gente for pro terreno metafórico: tudo o que queremos é desentupir as nossas vidas. De compromissos, de problemas, de maus sonhos, de maus sentimentos, de más notícias. Para muitos, a psicanálise, a Yoga, a ciência (no caso de um problema intestinal...) podem dar um jeito, mas a verdade é que logo os espaços se enchem de novo de tudo que é detrito e nos vemos, novamente, intoxicados, entrando pelo cano e precisando dos serviços de um roto-rooter existencial ou, no limite, divino. Qualquer hora, num momento de desesperança, vou ligar para a Desentupidora Adonai, agora que tenho o telefone. E aguardar o que acontece. Quem sabe se aquela van não estava, na verdade, levando uma equipe de Gabriéis e outros anjos caídos de férias no Rio, e nós estamos aqui, perdendo a maior oportunidade de fazer uma bela de uma limpeza de espírito. De resto, aceitem meu shalom, mesmo entupido.

30.1.11

Zweig em três tempos

Os 70 anos do livro ‘Brasil, país do futuro’, os 130 anos do nascimento do autor e o aniversário de sua morte ganham uma série de homenagens, incluindo a transformação da casa onde ele viveu em museu.

Por Arnaldo Bloch –Artigo publicado em O Globo

O país do futuro: a expressão que virou sobrenome do Brasil (e da qual o ex-presidente Lula fez uso) foi carimbada no imaginário nacional a partir da obra do escritor, poeta, ensaísta e dramaturgo vienense Stefan Zweig, aqui refugiado em 1941. Em agosto de 2011, serão 70 anos da publicação deste livro utopista. Afastado pelo editor brasileiro Abraão Koogan, seu cicerone, dos círculos liberais e de esquerda, amigo de Freud, Rilke e Joyce, humanista formado por Rolland Romain, Zweig sequer tomou conhecimento de que aquele regime encarcerava Jorge Amado. Dois meses depois do aniversário do livro, serão 130 anos do nascimento do escritor. E, encerrando este ciclo com a efeméride mais sombria, em fevereiro de 2012 o país lembrará sua morte e a de sua esposa Lotte, por ingestão voluntária de veneno.

STEFAN ZWEIG no convés do navio Alcântara, prestes a desembarcar pela primeira vez no Rio, em 1936
Muitos críticos foram implacáveis com o livro, a ponto de acusar Zweig de ter sido comprado pelo DIP, o poderoso órgão de propaganda de Vargas, em troca do passaporte que lhe salvava a vida. Ele não respondeu, mas afastou-se, indo morar em Petrópolis, numa espécie de exílio dentro do exílio. Num verão extremamente chuvoso e úmido, com Lotte tomada por acessos de asma, o isolamento e a depressão fizeram-no enxergar no cenário de guerra a impossibilidade da paz vindoura. Terminou a sua autobiografia, “O mundo que eu vi”, concebeu e escreveu a célebre novela “Uma partida de xadrez” e, dias depois do afundamento do primeiro barco brasileiro por submarinos nazistas, deu fim a tudo na madrugada de 23 de fevereiro de 1942.

A CARTA DE DESPEDIDA que Zweig escreveu antes de se suicidar e foto da mesa de cabeceira como ela foi encontrada, ambas em exposição em Petrópolis: há duas versões do adeus, uma delas com as anotações do copidesque que o autor fez, preocupado com a concisão.
— Nos últimos anos acreditamos que o país deixava de ser uma promessa. De repente, naquela mesma Petrópolis, nos defrontamos com as venerandas mazelas públicas. A única coisa que confirma o livro e avisa que podemos estar diante de novos tempos é a cadeia de solidariedade. Ao contrário de outros viajantes, Zweig não se fascinava com as riquezas do país, preferia discorrer sobre a humanidade dos brasileiros — reflete o jornalista Alberto Dines, autor da biografia “Morte no paraíso” (Rocco).
A pedra fundamental das celebrações desse biênio Zweig seria lançada na semana passada, com um evento de abertura da exposição multimídia “Zweig vive”, no Centro Cultural Raul de Leoni, em Petrópolis, enfim cancelado devido às enchentes. O painel, contudo, está lá, aberto à visitação. É uma parte do acervo que será reunido na casa onde o escritor viveu. O projeto é tornar realidade a Casa Zweig, que também é o nome da entidade que centraliza a iniciativa, presidida por Dines. Caindo aos pedaços, descaracterizada, a habitação, tombada, passará por ampla reforma. O novo projeto, do escritório do arquiteto Miguel Pinto Guimarães, prevê uma escadaria pontuada por vários espaços multiuso. Os interiores — desfigurados pela criação de mais um piso, puxadinhos, garagem e o envidraçamento das varandas que Zweig, com certo ímpeto ficcional, descrevia como “gigantescas” — serão totalmente reconstruídos.

A CASA ONDE Zweig viveu com Lotte em Petrópolis e o projeto de sua renovação: obras devem começar em breve.
Duas camas patente ocuparão o quarto. As máscaras mortuárias serão recuperadas, e as duas versões de sua carta de suicídio, em alemão (e respectiva tradução), poderão ser lidas: artífice do idioma, Zweig fez copidesque de seu adeus, preocupado em que coubesse numa só pagina. A última agenda de telefones será exibida. Toda a sua obra, traduzida e editada no Brasil por Abraão Koogan, estará nas prateleiras, junto com as edições internacionais de “Brasil, país do futuro”, além de fotos, textos, recortes de jornal, caricaturas e uma conferência inédita no Rio. Um acervo com as biografias de outros ilustres imigrantes aqui refugiados (Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai, Bernanos e Ziembinski figuram numa lista que já atinge 200 nomes) está sendo formatado, sob a batuta do historiador carioca Fábio Koifman, especialista no assunto e autor de “Quixote nas trevas”. Estudantes austríacos vêm participando da pesquisa, sob as custas do governo de Viena. O estado alemão se comprometeu a investir recursos na restauração, através de um programa para a reconstrução de imóveis históricos relacionados com a cultura germânica.
O grosso do dinheiro, porém, vem de filantropos brasileiros e estrangeiros e da Lei Rouanet. O acervo, contudo, poderia ser bem maior. Em 1943, o diplomata Paschoal Carlos Magno, à época servindo em Londres, conheceu os cunhados de Zweig, que manifestaram a vontade de doar todo o acervo pessoal ao Brasil. A lista incluía cartas, volumes encadernados, a correspondência, objetos. Pascoal fez a ponte com o Ministério das Relações Exteriores, mas o país estava em guerra e não se deu a devida importância. Hoje, a maior parte está nas mãos da sobrinha Eva, que fez uma seleção das cartas para o livro “Stefan and Lotte Zweig’s South American Letters” (1940-1942), lançado no exterior e já nas mãos de editores brasileiros. A publicação traz a correspondência de Zweig com familiares na Inglaterra e defende a tese de que a importância de sua segunda mulher, Lotte, na trajetória do escritor foi subestimada pelos biógrafos. De carona no biênio, ainda vem o filme teuto-brasileiro “Leporella”, baseado no conto homônimo publicado pelo escritor, da dupla Moacyr Góes/Diler Trindade. No elenco, Sandra Corveloni, premiada em Cannes por “Linha de passe”, e o alemão Peter Ketnath, de “Cinema, aspirinas e urubus”. Espera-se que mais surpresas projetem a memória de um dos autores mais traduzidos da História, best-seller até hoje nas praças europeias e americanas, e outrora muito lido pela classe média brasileira.

Shoah = Shoah

Sei que a palavra Shoah, independentemente de seu significado de origem (sacrifício), passou, com o advento do genocídio judaico pelos nazistas, a designar este, e apenas este, emblemático desastre. Mas, judeu e, portanto, humanista, que sou (para mim essa correlação é automática...), não consigo pensar no Holocausto sem pensar nos outros povos irmãos que sofreram não só a fúria assassina de Hitler: ao chorar o Shoa, choro também a matança de 70 milhões de índios pelos ibéricos; choro os negros acorrentados nos navios; choro os Incas e os Astecas; choro os expurgos soviéticos; choro Hiroshima; choro pelos armênios; choro o Vietnam; choro o 11 de setembro; choro Candelária; choro Vigario Geral. Lembrar dos nossos é lembrar de todos os que, injustamente, pereceram sob o ódio e a incompreensão dos tiranos e lembro que a tirania é humana e pode nascer no copração de alguém que um dia chamamos de irmão. Shoah é a lembrança de nossa própria condição, e, consequentemente, a luz para a nossa redenção.

Visita com Osias ao Rebe Azimov

Disse-me certa vez o Reb Azimov que... o que é que ele disse mesmo? Na verdade, não disse nada. Ele dormiu, em plena ceia de shabat. Era a primeira vez que o chefe dos Lubavitche de Paris me chamava para passar o Shabat na casa dele. Longa caminhada, da 17 Rue des Rosiers (a minúscula sinagoga mais antiga de Paris) até a região da Republique. Umas 30 quadras. E o rebe dormiu. Minha conversa podia estar chata, mas nem tanto. Era a exaustão do homem santo. Ao menos espero que fosse.
Azimov era (ou ainda é) de poucas palavras, ponderadíssimo. Certa vez numa daquelas discussões de sábado na sinagoga em que todo mundo come uns biscoitos e bebe vodca, uns lubs passavam a garrafa de uma polonesa de 99% por baixo da mesa, burlando a inofensiva Wiborowa que era oferecida à congregação. Uns enlouqueciam, outros em êxtase estavam já resvalando no candomblé. Na saída, Azimov me disse: eu bebo só um copinho e sossego. Assim posso ver essa gente toda tirar as máscaras e se revelar.
Pois um dia noutro shabat fomos visitar a mãe de Azimov. Na saída, umas ruelas sinuosas, passamos por um desses pátios internos parisienses, e de uma janela vinha um ruído horrível, metálico, de um maçarico ou algo assim, estragando o silêncio e a concentração pós-ceia, o repouso da alma. Azimov deu só uma olhada de relance. Fiquei com uma sensação ruim, como se aquele ruído fosse algum engenho infernal.
Duas semanas depois, Azimov teve um derrame. Fiquei um bom tempo sem notícias e acabei voltando a viver no Brasil. Uma estranha sensação, quase de culpa, me assaltou.
Anos depois, numa das vezes em que voltei à capital francesa, encontrei o Osias e ele me disse que ia visitar o Azimov (nem sabia que o Osias o conhecia).
Só então soube que ele estava vivo. Pedi para ir junto à visita. Apesar de os movimentos e a expressões de Azimov estarem limitadas pelo derrame, ele teve o ânimo de me perguntar se eu continuava casado com minha esposa iídiche. Eu disse que me separara. E que estava com uma goy.
Azimov se balançou como uma torre. Ele ficara realmente abalado por um momento, pois se lembrava dos tempos em que eu andava "na linha". Mas não foi hostil. Se estivéssemos na casa dele, no shabat, era capaz até de dormir. Por isso eu gosto tanto de Azimov. Um rabino que sobrevive ao inferno (desculpe, sei que isso não existe no judaísmo, então, seria a casa de um Dibuk ou algo assim) e que, de volta à vida, guarda na memória quem eu fui. E aceita quem eu hoje sou. Shalom.